Libertando minha pequena criança
Eu me concentro, coloco
uma música que remeta à minha infância ou que, ao menos, me deixe mais leve -
leveza remete à infância. Começo a acessar minha memória infantil que está lá,
escondidinha. Confesso que não é fácil deixar a criança chegar, pois aprendi que
devemos crescer e que um adulto tem seus compromissos, seus horários e que a
brincadeira acabou, e que agora é
trabalho, ganhar dinheiro, possuir uma posição de destaque na vida
profissional, ter filhos, casa própria...ufa! Sinto que ao longo do caminho,
minha criança foi sendo sufocada. Aos poucos, engolida pela areia movediça dos
compromissos de gente grande. Mas sei que preciso conectar à menininha que
gostava de brincar de bonecas, dançar em cima da mesa de centro, na sala da
casa. Então, prossigo na busca daquela criança. Minhas primeiras lembranças do
início da vida escolar são do meu uniforme: saia de pregas na cor azul marinho,
tênis branco, camiseta amarela e lancheira da mulher maravilha. Meu contato
inicial com a escola foi no Jardim de Infância, na Escola de Ensino Fundamental
Professor Leopoldo Tietbohl. Como meus
pais precisavam trabalhar, antes de ir para o trabalho, minha mãe me deixava na
casa dos meus avós e lá eu ficava até a hora de ir para a escola. Quem cuidava
de mim durante o dia eram meus avós. Lembro muito bem: eu, de mãos dadas com
meu avô, ou quem estivesse disponível para me levar até a escola. O percurso
era a pé, estudava no turno da tarde. No caminho para a escola, passava por
casas lindas, com jardins imensos e um prédio confeitado de merengue, com
janelas de chocolate, mas só eu sabia que aquele tinha sido construído daquela
forma. Durante o trajeto para a escola, a melhor parte era passar pelo tal
prédio, ficava imaginando como seriam as famílias e as crianças que habitavam
aquele lugar, será que eles ajudaram a confeitar? Como seria o interior dos
apartamentos, camas de biscoito e maçanetas de jujubas? Mas, depois do prédio
de merengue vinha o primeiro desafio que precisava vencer: uma imensa lomba,
que não se enxergava o fim. Fizesse chuva ou sol, e no sol principalmente, eu
lembro que saía de casa toda cheirosa, linda com minha saia de pregas e
camiseta amarela e quando chegava perto da lomba vinha um desânimo só de pensar
que tinha que subir tudo aquilo. Chegava no topo da lomba, suando. Na entrada
do colégio, havia uma escadaria gigante e para chegar até a sala de aula do
jardim de infância, ainda era preciso atravessar o imenso pátio da escola,
subir mais escadas, até chegar ao anexo do Jardim de Infância. Mas todo o esforço valia a pena, um lugar
mágico. Nunca tinha visto tanto brinquedo reunido em um só lugar. O que eu mais
gostava era o de blocos de montar do pequeno construtor, tijolos, com torres -
eu podia criar casas, cidades, estações de trem, me divertia muito. Minha
lembrança mais marcante no mundo das letras, foi um pouco traumática, não sei
se traumática é bem a palavra, mas meu coração se apequena, uma sensação de
desconforto e angústia tomam conta de mim. Era uma data especial: dia do
professor ou aniversário da professora, não consigo precisar muito bem. As mães
dos meus colegas se reuniram para comprar um presente para a tia Clarisse. E
todos os colegas, escreveriam seu nome no cartão para a “tia”, fiquei em
pânico, eu não sabia escrever o meu nome, e então como seria? Não faria parte
da homenagem para a “tia” Clarisse. Foi então que minha irmã, dez anos mais
velha que eu, percebeu meu desconforto e me apresentou o mundo das letras
através da escrita de meu nome. Foi um intensivo de três dias, ela escrevendo e
eu copiando, copiando, até que não precisei mais copiar e escrevi sozinha.
Recordo muito bem, eu na escadaria para o anexo do jardim de infância,
escondida junto com meus colegas escrevendo meu nome no cartão para a “tia”
Clarisse, um orgulho que não cabia dentro de mim. Sim, “tia” - naquela época,
chamávamos as professoras de tia, provavelmente os educadores e estudiosos
daquele tempo acreditavam que, chamando as professoras de tias,
estabeleceríamos uma relação mais próxima com a escola e o tempo que ficaríamos
com as “tias” seria mais leve e descompromissado.