Atividade 1- Ciranda de memórias de nossas alfabetizações na infância: proposta de uma narrativa detalhada do processo de aprendizagem das alfabetizadoras em processo, seu letramento, experiências de alfabetização, escola, professora, métodos, lembranças.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Marina Silva Galvão

Minhas memórias
                                                           
Nos últimos tempos, minha memória está me traindo. Portanto, não conseguirei contar em uma sequência cronológica, fatos impressões e sentimentos.
Vou iniciar, isto não está em uma memória apenas vivida, mas muito mais em uma memória que me foi contada. Sou filha de um catarinense de Laguna e de uma gaúcha do Rio Grande. Ambos, vindos de famílias com muitas dificuldades financeiras. Minha mãe perdeu a mãe no parto de sua irmã, aos 14 anos. Ajudou a tomar conta dos irmãos. Meus pais conheceram-se e casaram-se em Porto Alegre.
Ambas as famílias eram militantes do Partido Comunista. Após o nascimento de minha irmã mais velha, tiveram que ir embora para Santa Catarina. Apenas onze meses depois do nascimento de minha irmã, eu vim ao mundo.Tenho vagas lembranças de morar lá, lembro por exemplo, de estar sem a minha mãe, quando ela foi para Laguna fazer o parto do meu irmão. Não sei porque ela saiu de Florianópolis para ir para Laguna. Tenho em minha memória este período difícil, a separação da minha mãe muito sofrida.
Vivíamos uma vida muito difícil, sem recursos. Meu pai dava conta do básico, alimentação, moradia e roupas, e brinquedos não possuíamos. Minha mãe se desdobrava para tomar conta de três crianças pequenas.
Eis então que surge nosso primeiro brinquedo, meu irmão. Eu e minha irmã tínhamos cada uma, saia de armação. Era azul cheia de babados. Lembro com muita nitidez. Colocávamos uma como saia e a outra como cabelo no meu irmão. E ele virava nossa linda boneca. Ele era lindo, bem gordinho, adorávamos brincar com ele.
Esta cena ficou marcada em minha memória. Meu pai tinha, em Florianópolis, uma gráfica que fazia propaganda do partido comunista. Com o golpe de 1964, esta, foi descoberta pela polícia política, e tivemos que fugir. Lembro quando ele contava que foi só o tempo de fechar a gráfica e, na rua, encontrar um policial à paisana, que lhe perguntou se sabia onde ficava a gráfica. Ele é claro, ensinou um lugar oposto e escapou.
Viemos para Porto Alegre e aqui ele foi trabalhar em uma gráfica. Só que esta não confeccionava material de propaganda política.
Meus avós, avô paterno e materna, estiveram presos durante o regime militar. Alguns dos irmãos de minha mãe também. Essas lembranças povoam minha mente. Lembro, de uma noite em uma das casas que moramos, meus pais e dois irmãos de minha mãe, queimando material de propaganda contra a ditadura e favorável ao regime comunista. Lembro da polícia revistando nossa casa.
 Meu pai lia jornal e minha mãe obras literárias. Algumas foram “Olga”, “Subterrâneos da liberdade”, “Capitães de areia”, etc. Não é por acaso que meus “heróis não morreram de overdose”. Sempre foram desde criança: Marx, Engels, Fidel, Tche, etc. Certamente, aí iniciou-se minhas alfabetizações de mundos.
Meu pai estudou até a terceira série e, minha mãe, quarta ou quinta. Não me ajudaram em tarefas escolares. Meu pai sempre trabalhou muito e minha mãe tomando conta da casa e filhos. Mas nos mostraram a importância de estudar. Nos seus discursos, estava implícito que uma pesso se faz através do seu conhecimento e da sua leitura de mundo.
Da escolarização propriamente dita, lembro-me pouco. Sei que a primeira série fiz na escola Luciana de Abreu. O que lembro nitidamente foi a dificuldade de separar-me da minha mãe. Isso foi um sofrimento profundo. Fui uma criança extremamente tímida, com muita dificuldade de relacionamento e a separação me parecia algo intransponível. Sei que me alfabetizei na primeira série, sem dificuldades. Mas sei também que a escola não era prazerosa. Não lembro o método. Mas vagamente lembro-me dos exercícios motores e cartilha.
Vejo meu pai como uma pessoa que desenvolveu sua potência por si só. Não teve escolarização, mas tinha um conhecimento de vida fantástico e um conhecimento científico adquirido a partir de muita leitura. Conseguiu sucesso profissional sem estudar. Tinha o dom da eloqüência. Era um líder nato ou desenvolvido, não sei. Agregava pessoas tanto no âmbito do trabalho, como pessoal. Isso com humor sagaz e com sua retórica. Claro que na dimensão psíquica, tinha várias questões não resolvidas. Mas foi um exemplo para mim.
Todos esses entendimentos se deram com a maturidade. A escola vivida durante todo o período durante a ditadura militar não me deu esta visão humanizadora e progressista. Muito pelo contrário. Esta foi totalmente castradora. Se não fossem todos os conhecimentos aprendidos da minha dimensão cultural, talvez fosse mais um sujeito levando a vida de “gado”.
Minha bandeira não é a de luta nas ruas, nos movimentos sindicais e partidários. A minha bandeira é de ter um profundo respeito ao ser humano, com toda a sua diversidade. É a de tratar bem para mostrar que isso faz de nós humanos. E, no meu trabalho, ter profunda consciência ética da importância desta, para a sociedade.