Minhas memórias
Nos últimos
tempos, minha memória está me traindo. Portanto, não conseguirei contar em uma
sequência cronológica, fatos impressões e sentimentos.
Vou iniciar, isto
não está em uma memória apenas vivida, mas muito mais em uma memória que me foi
contada. Sou filha de um catarinense de Laguna e de uma gaúcha do Rio Grande.
Ambos, vindos de famílias com muitas dificuldades financeiras. Minha mãe perdeu
a mãe no parto de sua irmã, aos 14 anos. Ajudou a tomar conta dos irmãos. Meus
pais conheceram-se e casaram-se em Porto Alegre.
Ambas as famílias
eram militantes do Partido Comunista. Após o nascimento de minha irmã mais
velha, tiveram que ir embora para Santa Catarina. Apenas onze meses depois do
nascimento de minha irmã, eu vim ao mundo.Tenho vagas lembranças de morar lá,
lembro por exemplo, de estar sem a minha mãe, quando ela foi para Laguna fazer
o parto do meu irmão. Não sei porque ela saiu de Florianópolis para ir para
Laguna. Tenho em minha memória este período difícil, a separação da minha mãe
muito sofrida.
Vivíamos uma vida
muito difícil, sem recursos. Meu pai dava conta do básico, alimentação, moradia
e roupas, e brinquedos não possuíamos. Minha mãe se desdobrava para tomar conta
de três crianças pequenas.
Eis então que
surge nosso primeiro brinquedo, meu irmão. Eu e minha irmã tínhamos cada uma,
saia de armação. Era azul cheia de babados. Lembro com muita nitidez.
Colocávamos uma como saia e a outra como cabelo no meu irmão. E ele virava
nossa linda boneca. Ele era lindo, bem gordinho, adorávamos brincar com ele.
Esta cena ficou
marcada em minha memória. Meu pai tinha, em Florianópolis, uma gráfica que
fazia propaganda do partido comunista. Com o golpe de 1964, esta, foi
descoberta pela polícia política, e tivemos que fugir. Lembro quando ele
contava que foi só o tempo de fechar a gráfica e, na rua, encontrar um policial
à paisana, que lhe perguntou se sabia onde ficava a gráfica. Ele é claro,
ensinou um lugar oposto e escapou.
Viemos para Porto
Alegre e aqui ele foi trabalhar em uma gráfica. Só que esta não confeccionava
material de propaganda política.
Meus avós, avô
paterno e materna, estiveram presos durante o regime militar. Alguns dos irmãos
de minha mãe também. Essas lembranças povoam minha mente. Lembro, de uma noite
em uma das casas que moramos, meus pais e dois irmãos de minha mãe, queimando material
de propaganda contra a ditadura e favorável ao regime comunista. Lembro da
polícia revistando nossa casa.
Meu pai lia jornal e minha mãe obras
literárias. Algumas foram “Olga”, “Subterrâneos da liberdade”, “Capitães de
areia”, etc. Não é por acaso que meus “heróis não morreram de overdose”. Sempre
foram desde criança: Marx, Engels, Fidel, Tche, etc. Certamente, aí iniciou-se
minhas alfabetizações de mundos.
Meu pai estudou
até a terceira série e, minha mãe, quarta ou quinta. Não me ajudaram em tarefas
escolares. Meu pai sempre trabalhou muito e minha mãe tomando conta da casa e
filhos. Mas nos mostraram a importância de estudar. Nos seus discursos, estava
implícito que uma pesso se faz através do seu conhecimento e da sua leitura de
mundo.
Da escolarização
propriamente dita, lembro-me pouco. Sei que a primeira série fiz na escola
Luciana de Abreu. O que lembro nitidamente foi a dificuldade de separar-me da
minha mãe. Isso foi um sofrimento profundo. Fui uma criança extremamente
tímida, com muita dificuldade de relacionamento e a separação me parecia algo
intransponível. Sei que me alfabetizei na primeira série, sem dificuldades. Mas
sei também que a escola não era prazerosa. Não lembro o método. Mas vagamente
lembro-me dos exercícios motores e cartilha.
Vejo meu pai como
uma pessoa que desenvolveu sua potência por si só. Não teve escolarização, mas
tinha um conhecimento de vida fantástico e um conhecimento científico adquirido
a partir de muita leitura. Conseguiu sucesso profissional sem estudar. Tinha o
dom da eloqüência. Era um líder nato ou desenvolvido, não sei. Agregava pessoas
tanto no âmbito do trabalho, como pessoal. Isso com humor sagaz e com sua
retórica. Claro que na dimensão psíquica, tinha várias questões não resolvidas.
Mas foi um exemplo para mim.
Todos esses entendimentos
se deram com a maturidade. A escola vivida durante todo o período durante a
ditadura militar não me deu esta visão humanizadora e progressista. Muito pelo
contrário. Esta foi totalmente castradora. Se não fossem todos os conhecimentos
aprendidos da minha dimensão cultural, talvez fosse mais um sujeito levando a
vida de “gado”.
Minha bandeira não
é a de luta nas ruas, nos movimentos sindicais e partidários. A minha bandeira
é de ter um profundo respeito ao ser humano, com toda a sua diversidade. É a de
tratar bem para mostrar que isso faz de nós humanos. E, no meu trabalho, ter
profunda consciência ética da importância desta, para a sociedade.