Minhas memórias escolares
Quando dizem que o contexto histórico das vivências das crianças para a educação é importante, é incontestável. Eis que me deparo com minha própria história de vida e escolarização. Resolvi colaborar com os autores dessa área para comprovar e provar que é verdade. E que a educação tem muito a mudar, para que assim possa ser um instrumento de transformação da realidade das pessoas, vislumbrando dias melhores.
Não fui para a Educação Infantil nos meus primeiros anos de infância.
Apenas hoje sei que o direito à Educação Infantil é um imenso avanço que
tivemos em função da Constituição de 1988. Se não me engano, entrei na
escola na primeira série, entre 1988 e 1989, em uma escola em Pantano
Grande, a 120 km de Porto Alegre.
Lembro, claramente, de minha mãe nessa história de vida e
escolarização. Ela saía de Pantano Grande bem cedo para pegar o ônibus na
Rodoviária, numa viagem que dura em média duas horas e meia até Porto
Alegre para fazer faxina. Retornava tarde de Porto alegre, muito tarde da noite.
Esperávamos já dormindo. Os cachorros latiam avisando que a mãe chegara
no meio da escuridão. Não havia luz elétrica. Chegava cansada, deitava-se e
dormia. Pela manhã acordava cedo e saia para ir ate o armazém mais perto
comprar mantimentos para os oito filhos. Não era todos os dias que fazia
faxina, às vezes eram um dia sim, e outro não. A faxina era uma vez na
semana e até uma vez no mês. Dependíamos das faxinas de minha mãe. Até
que um dia conseguiu trabalho em um hotel de Pantano Grande. Hoje o nome
do hotel é Cidade Nova. A dona era uma “gringa”, como desse modo era
chamada. Minha mãe trabalhava como serviço geral e cozinheira. Os donos
pagavam mal. Era uma exploração, devia receber um salário mínimo ou até
menos.
Tudo que sobrava dos restos de alimentos dos hóspedes minha mãe colocava
em um baldinho e levava para casa, onde distribuía em partes iguais para
todos os filhos. Muitas vezes, a comida tinha cheiro de cigarro e até tinha palito
no meio. Comíamos bem felizes, sem reclamar. Por que reclamar, se a comida
era saborosa, tinha carne, arroz, feijão, ovos e saladas? Coisa que muitas
vezes não tínhamos em casa.
Minha mãe levantava cedo para trabalhar. Tomava um café preto gelado do dia
anterior e saía. Sempre via a xícara dela com resto de café e muita açúcar no
final em cima do fogão a lenha.
Eu ficava acendendo o fogão a lenha em casa, porque era expert em
fazer fogo. Desde pequena conhecia a natureza, experimentava tipos de
materiais da natureza para pegar fogo. Acredito que isso fez com que amasse
o fogo, também gostava das cinzas que ficam no final de um bom fogo, o que
fica depois dentro dos fogões, a lenha queimada. Simplesmente as coisas se
tornam cinzas.
O mais difícil sempre era fazer isso em fogão a lenha em invernos
rigorosos. Tínhamos que catar e armazenar lenhas e galhos no verão para que
não viéssemos a ter problemas em nossos fogões a lenha. Muitas vezes,
tínhamos que usar plásticos ou querosene. Na maioria das vezes, era o
plástico o mais usado por mim, vivia com as mãos queimadas, pelo fogo que
colocava no plástico que derretia e caía em minhas mãos. Vivia com as mãos
queimadas, mas quentinha pelo aquecimento do fogão a lenha e tomava nosso
café de cevada maravilhoso e, em seguida, saíamos, eu e meus irmãos para a
escola.
Na escola, era um mundo à parte aprendíamos as letras, o alfabeto e as
regras, e que regras! Minha mãe é de uma época que os estudantes tinham
que respeitar os professores, sem questionamentos. Entregou-nos para as
professoras. E disse: "Professora, se eles incomodarem pode botar de castigo".
Imaginem se iríamos desobedecer. Eu, nunca! Naquela época ainda
colocavam crianças de joelhos nos milhos como forma de punir. Lembro,
claramente, de meu irmão Sandro de joelhos no milho na sala da diretora. Não
pude fazer nada por ele. Quando saiu do castigo disse que ele deveria se
comportar para que não o castigassem, mas meu irmão não me escutava. Não
escutava a orientação da professora Jussara, e sempre se dava mal. Vamos
dizer que nunca se adequou à escola, e, talvez, tivesse razão, naquele
contexto. Naquele tempo histórico da educação, as coisas funcionavam assim,
os professores eram um tipo de inquisidores da educação. Quem se submetia
às regras e reproduzia o saber absoluto eram "os queridinhos". Os que não
conseguiam, eram os desobedientes, os que não estudavam, os que não
conseguiam aprender. Eram tachados de burros. Tenho certeza que quem
começou com o bullyng foram as professoras, e isso se espalhou como
exemplo para os estudantes praticarem com outros alunos.
Nessa mesma escola e sala estudávamos eu e meus dois irmãos,
Sandro e Nilza. Eles tinham entre 7 e 8 anos de idade. Eu acredito que tinha
entre 9 e 10 anos de idade. Aprendia mais rápido o conteúdo, ao certo por ser
mais velha, eu acho, não tenho certeza. Meus irmãos tinham muitas
dificuldades no processo de alfabetização.
E por sermos muito pobres, minha mãe nos comprava um lápis e um
caderno para durar o ano todo. Só que o material escolar que comprava era de
péssima qualidade. Meus irmãos apontavam o lápis, que se quebrava todo. Em
uma semana eles não tinham mais lápis. Eu cuidava muito bem do meu
material escolar, apontava o lápis de uma forma que não quebrava a ponta
para durar mais tempo. Quando a professora colocava o conteúdo no quadro,
eu copiava o meu conteúdo no meu caderno, do meu irmão Sandro e depois da
Nilza. Até a metade do ano foi assim. A professora deve ter descoberto que eu
fazia, para meus irmãos, as atividades de escrever e responder. Disse à minha
mãe que meus irmãos tinham dificuldades no processo de aprendizagem. Quis
ajudá-los e os ferrei. Tentei de todas as maneiras ajudá-los. Eis, que neste
mesmo ano, ambos fizeram provas no final de ano e foram reprovados. Foi a
maior tristeza para mim, meus irmãos não seguiriam comigo no próximo ano,
na mesma sala. Na mesma sala poderia protegê-los.
Minha memória segue viva nessas lembranças. Recordo bem quando
minha mãe cobrava do meu irmão Sandro o tema de casa, e a utilizar o
caderno de caligrafia. Quando o menino errava a letra em seu caderno, minha
mãe batia com uma régua nos dedos dele. Eu pensava: o que uma analfabeta
sabe sobre processo de alfabetização de crianças? Que horror! Pobre do meu
irmão!
Sempre fui boa estudante, gostava de escrever e desenhar. Meu mundo
de criança era quase só brincar. De brincar na escola e na minha casa.
Na escola, pulávamos corda até nossos corpos perderem as forças. Minha
casa era um casebre humilde, rodeado de mato em volta e uma sanga ao
fundo. Corríamos divertidamente. Fazíamos corridas de saco, corrida de rua,
cabra cega, pega-pega com meus tios Rogério e Luciane. Éramos muito
felizes.
Andávamos no mato criando nosso próprio mundo, o mesmo mundo que estou
recriando com vocês.
Ouvíamos os pássaros debaixo de umas árvores. Repetíamos os cantos
dos pássaros como se pudéssemos conectá-los conosco por meio da imitação
de um assovio repetidas vezes. Eu não gostava de cortar as árvores para fazer
lenha para o fogão. Saímos pelo mato catando gravetos, galhos e troncos de
árvores secos caídos no chão para levar para casa quase todos os dias. Era
possível encontrarmos cobras no caminho. Sempre morri de medo de cobras,
minha mãe tem medo e eu também. Quando sonho com cobras, pode escrever
que é inimizade. Observava a natureza, as folhas nas árvores, os pássaros, o
céu, as estrelas, o sol, a noite, o vento, a chuva, o inverno e o verão.
No verão, à noite, em Pantano Grande, era o que tinha de melhor. A lua
brilhava sobre nós. Com meus irmãos e tios sentados em frente à nossa
humilde casa, ficávamos noites inteiras conversando sobre fantasmas, o céu,
as estrelas e a lua. Contávamos, incansavelmente, as estrelas, sempre nos
perdíamos na contação. Acreditávamos, piamente, que na lua estavam o
burrinho, menino Jesus, Maria e José. Santa ignorância. Eu, sempre duvidei.
Sempre fui metida a saber tudo, porque sempre duvidava das explicações
desse tipo de história. Minha mãe sempre dizia: A Alessandra é metida a
sabichona. Eu, sempre petulante. Explicava de forma astuta. Mãe: "não será
porque eu estudo e aprendo rápido"? Minha mãe ficava furiosa. Logo
emendava uma ordem: "Vai lá, sabichona, cuidar das tuas tarefas". Lá eu ia.
Eu era a mais velha tinha que ser exemplo para meus irmãos.
Minha mãe dizia: "-Alessandra, vai buscar leite no leiteiro, vai buscar o
querosene no posto de gasolina que está faltando para o lampião, vai buscar
lenha para o fogão (eu dizia: mais lenha mãe? Ela dizia: você não sabe o dia
de amanhã), vai cuidar dos teus irmãos". Por final minha mãe só faltou me
pedir para acabar com a Guerra do Golfo. A Guerra do Golfo começou quando
o presidente iraquiano Saddam Hussein acusou o Kuwait de praticar uma
política de super-extração de petróleo, causando uma queda nos preços e
prejudicando a economia iraquiana. Saddam também ressuscitou problemas
antigos e exigiu indenização. Como o Kuwait não aceitou, foi invadido por
tropas iraquianas. Motivo esse que proporcionou a entrada dos EUA nesse
entrevero. Minha mãe acreditava que o Saddam ia invadir o Brasil e, em
especial Pantano Grande.
Voltando ainda à minha mãe, ela me mandava buscar querosene para o
lampião no posto de gasolina que ficava a 5km da nossa casa. Levava um
recipiente, que era para trazer cheio de querosene. Isso acontecia em dias de
tempo bom. No entanto, no inverno, voltava com o recipiente com a metade do
querosene. No caminho, ia experimentando em poças de água o querosene. O
querosene em contato com água faz lindos coloridos, criava arco- íris.
Quando chegava em casa com a metade do querosene, ela queria me
matar. Acredito que, quando crianças, os lugares e sua casa são super longe.
Quando criança parece que os lugares são distantes e cansativos de chegar.
Para eu caminhar longos caminhos, criava Odisseias e IIíadas para chegar no
destino. Até hoje, odeio caminhar longos percursos por conta dessas histórias.
Gosto mesmo é de correr e pular corda.