Atividade 1- Ciranda de memórias de nossas alfabetizações na infância: proposta de uma narrativa detalhada do processo de aprendizagem das alfabetizadoras em processo, seu letramento, experiências de alfabetização, escola, professora, métodos, lembranças.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Mirele Pinheiro de Mello




                                                                                                                                                
A biblioteca de minha infância: entre livros e discos, fantasia e realidade, eu descobri as palavras

Meu pai era médico e estudava muito, também era um grande leitor e via-se o quanto isso tinha valor para ele, pois tínhamos uma biblioteca com uma diversidade enorme de assuntos, de literatura científica, nas áreas de medicina e biologia, enciclopédias, romances, coleções de livros infantis, livros de ficção, faroeste... Devorei quase todo o acervo ali existente ao longo de minha infância e adolescência. Tinha verdadeira fome de letras. Não importava o gênero, a espessura do livro, se tinha ou não ilustrações, eu gostava era do desafio de decifrar cada palavra e seu significado no contexto da história! Mas é claro que eu gostava das imagens. Havia um volume de uma enciclopédia que falava sobre cachorros, que trazia fotos de “todas” as raças do mundo. Imaginem só, TODAS as raças do mundo! E eu tinha elas na palma de minha mão, em um livro!
         Minha mãe terminou os estudos do antigo 2º grau durante minha primeira infância. Fez duas licenciaturas durante esse período e também estudava muito. Ficava longos períodos estudando e lendo e, nessa ausência, suscitava a minha curiosidade sobre aquele mundo das palavras e o quanto isso era importante para ela. Assim, minha inserção no mundo das letras foi vasto e intenso, com uma mãe e um pai “mergulhados” em livros e cadernos!
         Também tive grande influência dos irmãos mais velhos que liam bastante, cada um dentro de seus estilos, mas com certeza, a inserção no mundo da literatura ao adolescer, em filosofia, psicologia, história e tantos romances que historicamente influenciaram o mundo, devo também a eles, pois quem tem irmãos mais velhos sabe o quanto os admiramos e procuramos seguir seus exemplos e passos.
         Há também uma lembrança forte com relação ao mundo da palavra: os discos (LPs), com seus encartes onde vinham escritas as letras das músicas. Adorava ler e acompanhar a letra ouvindo a música. Devorava TODOS os LPs que eu via pela frente, não importava o estilo musical. A atividade por si era verdadeiramente prazerosa! E fazia repetidamente, até memorizar a letra. E o que era mais mágico ainda: o aparelho de som ficava no mesmo local onde estavam os livros! Ou seja, era um lugar mágico, de letras e sons! Quando ali adentrava, me transportava para mundos diversos, de palavras, sons, cores e fantasias.
         Da escola primária recordo com carinho de espaços como a biblioteca, onde saíamos da dureza das cadeiras e classes enfileiradas e podíamos ler deitados em almofadas espalhadas, num grande tapete. Ali conversávamos, mostrávamos as ilustrações e partes da história que gostávamos uns aos outros, ríamos de piadas, declamávamos poesia... Lembro de cantar os hinos em datas comemorativas e, semanalmente, o Nacional, e amava! Até hoje sei todos de cor. Ah...ao fazer essas reflexões todas percebo o quanto fui capturada para o mundo das palavras pela música... Também ficaram nas lembranças os ensaios e apresentações de teatro, as técnicas desenvolvidas nas aulas de artes, as feiras de ciências e suas experiências curiosas, a pintura de mapas nas aulas de Estudos Sociais. Ou seja, um vasto mundo que é possível ser apreendido, vivido e sentido na escola! E ela fez muito sentido para mim! Não é à toa que me tornei professora!

         E como professora, dos dezenove anos que já trabalhei, apenas no início da minha carreira fui alfabetizadora do primeiro ano e somente durante um mês, pois fui chamada para um concurso e precisei deixar essa turma. Mas lembro bem da emoção (minha e dele) de acompanhar um estudante dando sentido para as palavras escritas, juntando as sílabas e lendo! Venho trabalhando, desde lá, com o segundo ciclo, onde as crianças já estão alfabetizadas em sua imensa maioria. É claro que a alfabetização não se dá somente no primeiro ano, ela caminha ao longo de toda a escolarização, pois as crianças leem o mundo, também através de muitas outras "Alfabetizações de Mundos”, como refere-se Guedes Trindade (2015). Essa autora tem proposto esse conceito, o qual amplia o campo das alfabetizações. Um constructo teórico-prático foi produzido, envolvendo seis campos de alfabetizações: Alfabetização e Letramento, Alfabetização Política, Alfabetização e Letramento, Alfabetização Ecológica, Alfabetização Audiovisual, Alfabetização Estética e Alfabetização Científica. Construção essa que pode ser assumida como proposta pedagógica em escolas e por professores que se propõem a serem críticos e transformadores. Por isso me considero uma alfabetizadora sim, uma Alfabetizadora de Mundos, com toda a paixão, profundidade, seriedade e comprometimento que a causa de educar e de alfabetizar demandam.