Memórias de alfabetização
Brinquei muito, corri muito,
conheci muitas crianças e ao mesmo tempo tinha o desejo de participar de todos
os momentos da organização escolar. Assistia as reuniões semanais de professores,
acompanhava minha mãe nos atendimentos de pais, entre qualquer atividade do
cotidiano de uma escola infantil. Já exercia um papel de liderança entre as
crianças, ajudava as professoras. Era um sonho, eu amava e lembro-me dos
mínimos detalhes.
Cresci nesse meio, sempre
desejando ser professora quando crescesse. Além dessa convivência tão forte com
a minha mãe, tive também a presença ativa do meu pai, que desde sempre
conversou muito comigo, sempre me trazendo algum conhecimento novo. Desde como se
dirigia um carro, até que eu deveria batalhar para conquistar minhas coisas.
Fui educada para ter opinião, para ser uma mulher forte e determinada. Para ser
uma cidadã crítica e reflexiva. Isso deu muito trabalho aos meus pais, pois não
é fácil lidar com pessoas questionadoras.
Meu processo de alfabetização
formal iniciou-se na escolinha da minha mãe, que já tinha uma prática
construtivista, lembro-me de participar de avaliações de leitura e escrita, de
aprender livremente, de ter a oportunidade de exercitar minhas hipóteses em
brincadeiras e atividades diversas. Cheguei à primeira série alfabetizada, e
apesar de gostar de estar na escola, me sentia desmotivada com as atividades,
que já me eram bem conhecidas, de: preencher linhas, trabalhar com letras descontextualizadas,
entre outras. E a melhor alternativa era conversar, eu conversava muito na
aula, e isso se transformava em queixas para a família.
Minha mãe começou a enfrentar
uma batalha na escola, justificando para professoras e o setor pedagógico os
motivos da minha falta de interesse nas aulas, o que culminou em uma
oportunidade de fazer uma testagem para ver se eu estava “apta” a avançar para
a segunda série. Lembro do dia do teste, um dia difícil, pois as professoras se
mostravam contrariadas, me sentia pressionada durante a avaliação, mas consegui
vencer o desafio, e fui para a nova turma. A segunda série já fez parte de uma
nova fase de adaptação, uma adaptação longa. Lembro de não querer frequentar a
escola, de não querer participar das aulas, o que foi sendo superado
gradativamente. Mesmo com todas essas emoções nesse início de trajetória
escolar e com as dificuldades enfrentadas, sempre gostei muito de estudar. Não
tenho traumas ou más recordações, acho que as vivências na escolinha da minha mãe
e toda a base familiar que tive foram fundamentais para me tornar quem sou
hoje. Tive uma infância deliciosa, construí muitas aprendizagens significativas
e me tornei uma profissional apaixonada pelo que faço recheada desses
atravessamentos e experiências, analisando criticamente cada professor que
passou em minha vida, desde o período inicial da vida escolar, pensando sempre
em quais eu me inspiraria e no que eu nunca iria me transformar.