Relato de minha alfabetização
Quando
iniciei o ensino fundamental, já sabia ler e escrever e adorava fazer
“cálculos”. Antes, havia frequentado, dos dois aos seis anos, a Educação
Infantil. Minha mãe lembra que não precisei de adaptação, mas ela, sim, pois
quando me levou à escolinha, peguei na mão da professora, que ainda se nomeava
de "tia", e abanei, despedindo-me dela. Ela foi quem chorou, porém,
compreendeu que, daquele instante em diante, a escola seria um espaço de
divertimento, aprendizagem e relações saudáveis.
Com seis anos
e meio, entrei na 1ª série. Escola nova, colegas novos, rotina diferente,
livros, cadernos, um pátio enorme (na concepção de criança), várias
possibilidades. Não lembro, exatamente, como a escola organizou as turmas,
contudo, entrei na sala de aula com a fila formada por aqueles que seriam os
meus colegas. Aliás, até hoje, alguns daqueles colegas/amigos fazem parte da
minha realidade. O nome da minha professora era Kátia.
Diz minha família
que sempre fui uma criança muito curiosa e perspicaz. Também aprendia as coisas
com rapidez e autonomia. Imagine na escola. Queria experimentar todos os
brinquedos do pátio, participar de todas as atividades. Na sala, queria sempre
responder todas as perguntas, escrever no quadro, distribuir os livros e as
folhinhas para os colegas, buscar objetos para a professora, ensinar as outras
crianças. Conhecia quase todas as músicas que cantavam na aula. E, quando não
conhecia, olhava atentamente para a professora para aprender a letra. Uma ou
duas vezes ouvindo e balbuciando algumas palavras, já bastavam para cantá-la,
com entusiasmo. Quando conheci a biblioteca, foi uma festa. Se fecho os olhos,
consigo ver a imagem dos colegas escolhendo livros e eu, sentada no meio das
estantes, encantada com tanta história.
No final dos
bimestres, a escola entregava boletins aos pais. Documentos com notas e breve
parecer da professora. Minhas notas eram altas. No quesito comportamento,
sempre tinha algo do tipo “precisa manter-se sentada em sala de aula, pois como
acaba suas tarefas com rapidez, passa de classe em classe para ajudar os
colegas e assim poderem brincar”. Meus pais conversavam comigo, dizendo que eu
não podia atrapalhar a aprendizagem dos colegas. Deveria esperar todos
terminarem as tarefas para depois brincar.
Meus pais
foram muito presentes no período de alfabetização. Adoravam olhar minhas
atividades, gostavam de ouvir minhas histórias, participavam de todos os
eventos da escola, divertiam-se com a minha lógica para explicar os fenômenos
diários. Meu pai suspirava orgulhoso nas minhas apresentações de dança. Minha
mãe curtia muito a fase de comprar materiais, sobretudo, cadernos. Ela os
encapava com capricho, normalmente com pedaços de tecido. Ficavam lindos. Eles
estimulavam a mim e ao meu irmão a desenvolver o raciocínio lógico, por meio de
jogos de tabuleiro, principalmente, e o gosto pela leitura. Meu pai era amante
de gibis, Tio Patinhas, Almanaque Disney e Mickey eram seus preferidos. Minha
mãe devorava livros de suspense e romance. Tínhamos uma assinatura de livros de
uma editora. Todo mês recebíamos uma caixa com cinco títulos diversos. Era uma festa abrir aquela
caixa. Quando não brincávamos na rua com a família e com os amigos, estávamos
em casa jogando varetas, dominó, Banco Imobiliário, jogos de perguntas e
respostas, Scotland Yard, entre outros tantos.
Lembro bem,
numa das conversas que a professora teve com minha mãe, sobre o fato de eu ser
uma criança “muito ativa”. A partir daquele dia, a professora passou a me
entregar palavras cruzadas, quando eu concluía as tarefas. Até hoje, adoro esse
tipo de passatempo. Não recordo de situações que poderiam ser consideradas
negativas. Sempre curti muito a escola e tudo o que ela oferecia.
Hoje, como
professora, vejo minhas atitudes nas crianças que compõem a minha turma de
trabalho. E adoro o movimento delas. A curiosidade, a alegria de compreender a
atividade, de aprender, de construir novos conhecimentos. Sinto-me muito à
vontade na escola e acredito que este sentimento passe pelas experiências
positivas que tive ao longo de minha formação.
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