Atividade 1- Ciranda de memórias de nossas alfabetizações na infância: proposta de uma narrativa detalhada do processo de aprendizagem das alfabetizadoras em processo, seu letramento, experiências de alfabetização, escola, professora, métodos, lembranças.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Anne Gabriela Ferreira de Abreu

Letramento e alfabetização em meus primeiros anos de escolarização
                                                                                       

      Em minha primeira experiência escolar, no Jardim de Infância, fui pouco assídua. Gostava de ir à escola somente quando minha prima de mesma idade também ia. Tinha muito medo de ficar só naquele lugar. Talvez pelo medo, costumava ser desatenta e vagarosa em tudo o que fazia naquele
espaço. Sim, porque em casa eu era ativa, mas na escola não tinha tanta intimidade com todo aquele universo. A pracinha, a rodinha, os papéis! Tudo tão novo que foi despertando receios e encantamentos! Tudo tão banal aos olhos adultos, mas tão intenso para minhas primeiras olhadas, primeiras tocadas. Destaco meu encantamento por andar na gangorra, fechando os olhos sob um sol forte. Eu enxergava cores! Eu via (e sentia) as cores! Nesse brincar, sentia uma boba e profunda alegria! Também recordo do meu encantamento em peneirar a areia, separando as pequenas pedras e obtendo aquela areia bem fina, gostosa de tocar. Outra grande emoção foi riscar, rabiscar, em uma lixa com o giz de cera. Que lindo era observar aqueles resultados!
      Os encantamentos aconteciam, mas acredito que os estranhamentos eram maiores. Estranhei ordens, comandos, posturas. Não conseguia responder na velocidade esperada aquelas instruções motoras para andar sob e sobre a cadeira, baixar/levantar/pular, obedecer. Eu era lenta, talvez por estar “muito em mim mesma”, em um tempo muito singular de descobertas. Encantada com as novidades e com dificuldades de me adaptar a outro tempo que não o meu.
      Dessa forma, o Jardim de Infância passou. Passou deixando suas marcas. No ano seguinte, fui para a primeira série. Fileira de classes e cadeiras. Tudo tão difícil de organizar em minha mente, de coordenar, que eu facilmente esquecia onde era o meu lugar. Houve uma mudança de escola. Da
escola seguinte tenho poucas lembranças deste primeiro ano. E lá eu ia diariamente, mas também não me lembro de detalhes, de sequências. Certamente, seguia desatenta. Das memórias guardadas, lembro de algumas colegas que gostavam de mexer e arrumar o cabelo de minha professora. Lembro de uma página do livro que eu amava, porque tinha a figura de um bebê, e eu amava bebês. Talvez essa tenha sido a primeira palavra que eu tenha lido. Uma palavra dotada de afeto e de sentido. 
     Também foi na primeira série que descobri o que era um boletim. Descobri quando minha tia disse que minhas notas estavam ruins e que se eu não estudasse seria reprovada. Temi repetir o ano, ser marcada pelo “fracasso”, pela impotência. Não sei bem o que fiz, mas não fui reprovada. Não sei se conquistei a decodificação ou se minha professora apostou que eu aprenderia no ano seguinte. Embora eu tenha poucas memórias desses dois primeiros anos sei que, na sequência, fui uma apaixonada pelos afazeres escolares. Talvez minha relação com as professoras seguintes foi me deixando mais próxima do universo escolar, onde eu passei a gostar de fazer cada atividade, onde eu sentia que descobria coisas diferentes das que eu tinha em casa. Acredito que deve ter havido uma aposta nas minhas aprendizagens, de modo que passei a ser reconhecida pelo que fazia e isso era um grande estímulo. Embora não lembre o momento dessa mudança, vejo uma profunda diferença na estudante desacreditada à estudante de referência, a que tinha sucesso nos fazeres escolares. Cheguei a me entusiasmar tanto que minhas brincadeiras eram muito em torno do universo escolar. Brincava de professora “sem parar”. E, no entusiasmo com a escrita, passei a querer inventar histórias.
      Lembro-me de sentar em uma escrivaninha em casa e escrever uma longa narrativa, inventado uma história a partir de uma imagem dos personagens da Vila Sésamo. Foi uma fluência inventiva, onde fiquei encantada com o que estava a produzir. No dia seguinte, levei entusiasmada para a minha professora ver o que eu tinha feito. Minha sensação era de que ela iria adorar. Mostrei a ela, ainda no pátio, o meu escrito. Ela não deu muita atenção. Nunca deu um retorno sobre o feito. É incrível essa memória. Eu acreditava que aquilo valia muito e, no entanto, não teve demonstração de valor algum. Hoje, penso que essa ausência de valor não me tornou uma má estudante, mas certamente, não fez uso daquela potência que ali se manifestou. Eu estava pronta para mergulhar profundamente no universo da invenção e da escrita, do registro, e não tive uma escola que valorizasse isso. E precisava ser a escola que me acolhesse nesse fazer, afinal, minha casa era um universo distante da escrita, letrada para a televisão e longe dos livros, das histórias escritas. Era a escola que estava a me abrir outro universo, a ampliar meus repertórios culturais. 
      Ainda que com estas e algumas outras limitações, as escolas pelas quais passei realizaram um importante papel em minha trajetória. Sobretudo, porque para além de toda a limitação curricular, a escola era – e ainda acredito que seja – uma grande oportunidade de encontros, de humanidades. Em seus corredores, nas suas brechas, eu via muita vida e sentia-me muito feliz em aprender coisas ali. Tinha algumas amigas e era muito próxima aos professores. Adorava conversar com eles, saber como organizavam suas vidas, como superavam seus problemas. Um currículo oculto que talvez tenha tido maior sentido do que o que estava explícito. Um currículo que de fato corria, corria em busca do saber, do que nos faz humanos. Porque o pulsar da vida é muito forte e quando encontra uma mínima possibilidade de se reconhecer manifesta-se e multiplica-se, fazendo uso de toda a sua potência.

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