Atividade 1- Ciranda de memórias de nossas alfabetizações na infância: proposta de uma narrativa detalhada do processo de aprendizagem das alfabetizadoras em processo, seu letramento, experiências de alfabetização, escola, professora, métodos, lembranças.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Giane Dias

                                                    Minhas lembranças primeiras
                                                                                                           

Minha infância foi no campo. Não havia energia elétrica, nem TV, nem qualquer tipo de literatura. Não recebíamos jornais, nem tínhamos acesso a livros. Vez por outra, minha mãe recebia cartas de parentes que moravam fora do estado e no exterior. Quando acabava a luz do dia, ficávamos reunidos, com ela, ao redor do lampião. Aproveitava para nos contar histórias, ler as cartas e ouvir o rádio conosco. Até que nosso pai chegasse do trabalho. Após, íamos cedo para a cama, entre 20h e 21 h no máximo. Ao amanhecer, acordávamos cedinho, refeitos para um novo dia.Brincávamos pela chácara
correndo, pulando, fazendo casinhas, subindo em árvores. Cantávamos musiquinhas que nossa mãe nos ensinava, e as acompanhávamos de instrumentos feitos por ela mesma, com as antigas latinhas de azeite, da década de 1970. Formávamos uma bandinha e saíamos pela estrada para buscar os animais a seguir nosso pai no campo, ou ir à fonte d’água acompanhar nossa mãe, sempre cantando e batendo latinhas. O primeiro livro infantil que ganhei de minha madrinha, chamava-se “Meu Apelido é Lili”. Eu decorei tudo o que dizia nele. Lembro-me que pedia aos adultos para que o lessem para mim. Aos poucos fui decorando e fazendo associações com os desenhos das páginas, e já sabia em cada folha o que estava escrito, ainda que não reconhecesse muitas letras. Aos domingos, tínhamos acesso a muitos episódios de histórias infantis, por meio do rádio, que apresentava um programa de histórias, como “O Gato de Botas, A Branca de Neve e os Sete Anões, A Bela Adormecida, João e o Pé de Feijão e outras. Para frequentar o pré-escola, precisava permanecer de segundas a sexta-feiras na casa de minha avó, na zona urbana. Onde minha família morava, não havia escolas. Minha primeira professora chamava-se Cila. Dessa fase, lembro de aprender a desenhar em folhas e no caderno e usar as cores para colorir. Eu tinha uma merendeira verde-limão. A professora do 1º ano chamava-se Helena. Lembro-me de recortar letras de revistas, para formar palavras. Antes, eu decidia as palavras que desejava formar, e só depois procurava as letras. Por isso, eu demorava bastante. Mas não desistia, procurava todas as letras, até que conseguisse formar as palavras que escolhia. Recordo também, de ficar juntando as letras que encontrava pelos caminhos que passava; em placas, letreiros de ônibus, em frente de casas comerciais, para tentar descobrir o que estava escrito, sem perguntar a ninguém.Era amiga íntima de minha professora Helena. Ia para sua casa aos sábados, passeava e almoçava com ela. Quando ela escutou seu nome no listão de aprovados do vestibular da UFSM para Odontologia, em janeiro de 1976, eu estava juntinho dela, e vibrei com a mesma. Já estava de férias, mas tinha ido passear em sua casa. Ela pedia regularmente, ao meu pai que me levasse pra casa dela. Minha prova de final de ano, teve o desenho de um pinheiro com bolinhas e estrelas para colorir. Pintei-o de verde. As estrelas, pintei de amarelo e as bolinhas de cores diferentes. Ao voltar para casa na zona do rural, no término da temporada, ensinava meus irmãos mais novos a lerem e escreverem. Brincávamos de aula. Eu era a professora e eles eram os alunos. Escrevia no chão do pátio de terra arenosa, à sombra das árvores, no verão. E eles reproduziam, usando galhinhos quebrados das árvores para riscar a terra. Já nos bonequinhos que desenhávamos, usávamos bolinhas de cinamomo para preencher os olhinhos. Também, escrevíamos as letras das musiquinhas infantis que cantávamos com minha mãe. No ano seguinte, eu já conduzia meus irmãos, que foram matriculados na mesma escola.Caminhávamos alguns quilômetros por estrada de chão, até o ponto onde passava o ônibus com destino à zona urbana de Santa Maria. Viajávamos um tempo aproximado de 90 minutos, e chegávamos a nossa amada Escola Municipal de 1º Grau “Duque de Caxias”. Lá eu me sentia em casa - exatamente como se a escola fosse minha segunda casa e família. Minha “profe” Helena, veio estagiar em Odontologia, tornando-se minha dentista, e me ensinando muitos cuidados com os dentes e saúde. Eu participava de todas as atividades da minha escola quanto podia. Ora como atleta, ora como declamadora de poesia, ora como cantora no coral. Também, apresentava danças tradicionalistas com trajes típicos. Fui muito feliz na minha primeira escola. Aproveitava as diferentes oportunidades para aprender sobre tudo que me era acessível.”

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