Atividade 1- Ciranda de memórias de nossas alfabetizações na infância: proposta de uma narrativa detalhada do processo de aprendizagem das alfabetizadoras em processo, seu letramento, experiências de alfabetização, escola, professora, métodos, lembranças.

sábado, 23 de setembro de 2017

Paula Acássia de Oliveira

                                                       A mão e a voz que alfabetiza

“_Sobe a mão até lá em cima e deeeeesce, assim...isso mesmo!

“_Viu só? É fácil...Agora, copie essa letra que é a letra do teu nome...”

Uma voz suave com cheiro de café, me conduzia pelo  caminho e pelas formas das letras, alta e baixas, redondas e finas... Assim,  começo a recordar de minha passagem de leituras das “coisas”, porque li as palavras ouvindo muitas formas de entender o que se passava por ali, nos meus primeiros anos de aprendiz...  Acompanhava diariamente minha mãe a folhear jornais, revistas, bula de remédio, e tudo o que calava sua voz aguçava minha atenção e pronto: lá estava ela murmurando, lendo alguma coisa. Comecei  por volta da mesa, de joelhos nas cadeiras, rabiscando os jornais velhos, contornando as letras grandes. Fecho os olhos e lembro: _ Paula...é essa aqui: “P” de pato...essa oh! Assim, aprendi a escrever meu nome: pelas letras de jornais.

Ainda hoje, ao folhar um livro muito antigo ou uma foto com algum registro escrito no verso, encontro meu nome escrito pela minha mãe e, abaixo, minhas letrinhas. Lembro  daquela mão esquerda, tentando me guiar  firme e das  vezes que me fez escrever quilômetros nos cadernos de caligrafia.
(Por que a gente chora ao lembrar esse tempo?)

Não frequentei o Jardim de infância, fui com sete anos para a primeira série do fundamental, e a memória me traz a sensação de sentir o cheiro da sala de aula, do assoalho de madeira muito empoeirado.  O barulho das pisadas, o arrastar de cadeiras, o apagador batido forte no quadro, o pedindo silêncio. 

As inúmeras bolinhas de papel crepom que contornei as letras e desenhos, as coloridas raspas do giz de cera e a mágica cor que transparecia nas folhas brancas com cheiro de imaginação...quantas saudades. Tinha o feijão brotando num algodão úmido, vigiado, diariamente num tempo eternizado, adubado de amor. Os recreios, os pãezinhos caseiros com mel, embrulhados num pano de copa e cheiro de casa na escola.  Lembro da praça do bairro, que era ao lado da escola. A única praça ali perto. Íamos em grupos: Os mais velhos cuidavam dos mais novos, dia de festa!

Não posso dizer que minha alfabetização se iniciou nesse tempo, mas comecei a ler o mundo das coisas imóveis, por pessoas móveis. Por pessoas amor, por amor de pessoas, em lugares que fui. Minha querida professora tinha olhos grandes, cor de amêndoa, cheiro de creme de rosas, usava um relógio e um anel brilhante. Seus cabelos eram cacheados, seus dentes branquinhos (Querida professora Elisete, ainda tenho o meu boletim, com a tua pintura na capa!) Quase nunca faltava, mesmo em dias de chuva e sol, lá eu ia faceira com minha sombrinha vermelha.

Fui  aluna média. Sempre vinha uma observação: precisas conversar menos! Estude em casa!

Filha do meio, pais pobres, de poucos estudos, sempre me diziam que tinha que estudar para “ser alguém”. Reprovei algumas  vezes durante o período escolar. Período escolar, este que ainda é de notável rigidez e praticamente igual ao que vivi em 1988. Nunca fui boa com os números. Via um, identificava outro, trocava muito. Essas lógicas que exigem das multiplicações e divisões, me desclassificavam, me deixaram longe várias vezes dos meu colegas” inteligentes”. Tinha muitos amigos, tínhamos inúmeras brincadeiras em comum, mas eu não sabia a tabuada do sete. Ficávamos correndo o pátio, todos os dias, mas eu não soube fazer divisão. Assim, me distanciei de uma colega que um dia chorou e me confidenciou , dizendo que estava com muitas saudades da sua mãezinha, que havia partido. Fui fiel. Fui amiga, companheira  e solidária. Mas não tive condições de ir em frente com ela, porque não aprendi  a divisão...  E desde então, aprendi a ler letras e ler o tempo. A palavra eu decifrei e o tempo me disse que eu não o acompanhava. Ou alguém me disse que eu não compreendia a tempo! Qual tempo? O meu ou o de quem me deu o tempo? Por muito tempo, eu perdi o tempo. Por muito tempo, eu não aproveitei o  pouco tempo e ele me deixou pra trás. Pra trás onde, se estou aqui sentada voltando no tempo... Quem disse que ele não era meu?


Aprendi a ler desde quando ouvia o pulsar do coração de minha mãe. Lembro da sua voz afônica, ainda dentro do seu colo, lembro muito. E pelo olhar aprendi o que é amorosidade, brabeza e alegria. Lia, então, reações e sentimentos. Li e aprendi a conviver entre irmão, aprendi então a dividir. Aprendi que, lá na escola, eu tinha tempo pra mostrar tudo isso através do lápis que segurava sozinha e corajosamente.  Aprendi a ler, e para compreender me esforço muito desde de pequena. Sigo me alfabetizando de vidas: as  que já tive e as que encontro com o passar dos tempos.