Atividade 1- Ciranda de memórias de nossas alfabetizações na infância: proposta de uma narrativa detalhada do processo de aprendizagem das alfabetizadoras em processo, seu letramento, experiências de alfabetização, escola, professora, métodos, lembranças.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Bruna P.Zitzke

                               Alfabetização e memórias                                                                                                               
Inicio estas lembranças com a alegria de quem encontra uma caixa de fotos, cadernos e brinquedos da infância. Um tesouro assim é bastante valioso, mas não se equipara a recordação de momentos importantes em nossas vidas como o período em que fomos alfabetizados. Penso que tudo o que aprendemos tenha sido, em algum momento da história, vivido e aprendido também por pessoas que nos antecederam em nossas famílias: nossos pais, tios, avós, bisavós e assim por diante. Por isso, para falar sobre o meu processo de alfabetização, precisei redesenhar o caminho escolar que minha família percorreu antes de mim, e compreender as muitas maneiras nas quais estes caminhos se entrelaçam aos meus próprios. 

A referência mais antiga que tenho sobre a alfabetização em minha família é a da minha avó materna, que aprendeu a ler já em idade avançada. As únicas palavras que escreveu na vida foram seu nome e sobrenomes. Não fazia qualquer operação matemática. Disse-me, um dia, que aprendera a ler “lendo”. Quando ia à nossa casa nos visitar, onde eu morava com meus pais, se dirigia à estante de livros e observava, calmamente, seu pequeno acervo. Pegava um livro, folheava, observava por minutos e até horas, cada detalhe, a capa, as imagens. Se encontrava uma lupa em cima da mesa, esquecia do tempo admirando a grandeza das letras pelo efeito da lente. Eu desfrutava esses momentos com ela, tendo todo o respeito a uma pessoa que, em silêncio, lê. Entrava sem fazer barulho na sala e aguardava a conclusão daquelas leituras tão expressivas na face enrugadinha da minha avó. Anos depois, ela contoume, comovida, que aquele foi um período muito especial da sua vida, pois ali ela estava aprendendo a ler: - Quem me ensinou não foi ninguém. Quem me ensinou a ler foram os livros…. 

Sim. Ela observava as letras e palavras que já conhecia, os nomes dos filhos, de marcas de produtos que consumia, procurava algum sentido nas frases, nos sons… Lia livros de receitas, romances, livros didáticos e, principalmente, sobre lugares do mundo e a imensidão das belezas naturais da Terra. Lembro da sua expressão de surpresa ao reconhecer o nome da sua cidade natal no mapa do Rio Grande do Sul: - Pi-ra-ti-ni! Mas quantos ‘is’! 

Pois bem. Vó Diva, como era conhecida, uma índia guarani vinda lá das fronteiras uruguaias, ensinou-me pelo exemplo a ser ‘cúmplice’ da leitura. A ter um livro em mãos não como quem porta algumas gramas de papel impresso, mas como quem tem a chave de um portal que leva a lugares fantásticos, cheio de criaturas e histórias que meu ser de 4 anos estava aprendendo a descobrir.

Afirmava a todos a importância do estudo, e se irritava quando precisava acompanhar a lição de casa dos netos, pois sua escolaridade a limitava. Dizia que eu teria jeito pra leitura. E que me dedicasse a ”olhar bem as palavrinhas” para que, quando aprendesse a ler, pudesse ler, para ela, as notícias do jornal diário. Ela falava sobre “ler o mundo’’, sobre a capacidade que temos de aprender a partir do aprendizado do outro, sobre o poder do conhecimento para “desamarrar’’, nas pessoas, “as coisas que o mundo grande nos faz acreditar’’, dizendo na simplicidade das suas poucas e rudes palavras, que o processo de aprender a ler e escrever vai muito além de se aprender o alfabeto. Mas abre portas. Dá-nos a oportunidade de percorrer esta vida com alguma experiência na bagagem, com algum entendimento dos processos que se desenrolaram até o momento presente. E, principalmente, empodera-nos com o dom da expressão das emoções, sentimentos e intenções a partir da linguagem escrita. 

Contei tudo isto porque o meu processo de alfabetização começou bem antes do meu contato com o lápis e o caderno. Como em tudo na vida, as nossas raízes se fazem presentes também, e o contexto familiar e cultural em que chegamos ao mundo tem uma importância incontestável. 

Durante as aventuras da minha avó materna no universo literário do meu pai, este, que na época era policial civil e acabara de ser aprovado no curso de Licenciatura em Geografia pela Fundação Universidade de Rio Grande, vivia um período de muito estudo, intercalado com o trabalho, os cuidados com o jardim da casa e nosso pequeno pomar, a missão 24h de marido e pai, e os estágios nas escolas de Ensino Fundamental. Havia um programa de incentivo à leitura, promovido pelas Secretarias de Educação – não sei ao certo se municipais ou estadualem que era distribuído uma grande quantidade de livros infantis gratuitamente nas escolas públicas. Cada criança ganhava 5 ou 6 livros no início de cada bimestre. Meu pai, então, em uma atitude desonesta mas bem intencionada, quando percebeu que os malotes continham mais livros que alunos, furtou, bondosamente, os livros excedentes e os deu a mim. Colou um adesivo colorido em cima do carimbo das secretarias e alegremente lia, para mim, antes de dormir. Bom, em verdade, nem sempre tão alegremente, pois eram tempos difíceis. 

Nossa casa de dois cômodos abrigava a mim, meu pai e minha mãe e os animais abandonados que adotávamos temporariamente, principalmente no inverno. Eu contava histórias a eles (os animais) quando meu pai precisava estudar. Eles ouviam atentamente – ao menos, eu acreditava que sim. Mas preferia, claro, que alguém lesse para mim, e possivelmente, vez ou outra, chantageava meus pais na tentativa de ganhar uma leitura antes de dormir. Às vezes, ganhava a disputa e as histórias escolhidas eram sempre as mesmas, dos livros com ilustrações mais coloridas, e histórias que mais pareciam poemas. 

Pois bem. Tal qual a história de minha avó, eu olhava as palavras enquanto ouvia o som delas, e memorizava a voz da minha mãe citando e cantando aqueles versos. Sim, eu acreditava que os livros produziam algum tipo de música, e que, se os deixasse abertos por muito tempo, as personagens e criaturas ilustradas ganhariam vida.. então, guardava muito bem cada livrinho, e cuidava deles como quem zela de um tesouro. 

Um dia, voltando para casa de ônibus, em uma viagem longa e vagarosa (para uma criança pequena tudo é tão imenso!!), estava eu com 4 anos vividos, chorando e reclamando de frio e fome, e minha mãe tirou da bolsa um livro. Era um dos meus preferidos, que ela mesma sabia de cor. A história e a ilustração ficaram na memória até hoje. Se chamava ‘’Fofa Fofinha’’, e contava a história de uma nuvem que estava insatisfeita com sua condição de nuvem e, entristecida com a situação de poluição e guerras que a humanidade provocara no mundo, resolveu viajar, até se encostar no “Pão de Açúcar’’ e virar algodão doce! E foi na inocência dessa história que eu aprendi a reconhecer o som das palavras. Ali mesmo, no ônibus, no meio do cotidiano cansado e frio, conta minha mãe que eu ‘’li’’ todo o livro. Algumas pessoas próximas questionaram minha mãe sobre a precocidade da minha escolaridade. Mas eu não havia lido, verdadeiramente, apenas recitado aquela história que havia ouvido tantas e tantas vezes, reconhecendo os versos que acompanhavam cada ilustração. 

Assim, minha família viu na leitura uma oportunidade de “entretenimento’’ para ocupar minha curiosidade enquanto cumpriam seus afazeres domésticos e, principalmente, quando eu precisava passar o dia com eles no trabalho. Os livros foram os mesmos durante anos. Alguns gibis e um ou outro exemplar se somaram à pequena coleção. Aquele era meu material de estudo, companheiros de papel para os dias chuvosos e frios, de ventanias e temporais, dias de passagem do vento Minuano em que só o que se pode fazer é ficar em casa e esperar passar. Quando o tédio batia, meus pais me pediam uma história. E eu lia, com atenção, pra lembrar bem das poesias expressas naqueles sons, palavras e imagens. 

Gradualmente fui me rodeando de palavras. Aprendi logo a recortar com a tesoura e deixava meu pai de cabelo em pé, recortando seus livros e documentos a toda hora. Também colava as letras recortadas pela casa, na intenção secreta de não esquecer as letras que aprendia. Me causava um misto de estranhamento e fascínio a quantidade de formas, cores e tamanhos que as letras podiam ter dependendo do contexto. Frequentei várias creches, escolinhas e grupos de cuidadoras no bairro que morava, e em quase todas as situações, era uma das crianças mais novas. E em algum momento do dia, as crianças faziam seus deveres de casa. Eu, menor, pegava um papel qualquer e ali escrevia qualquer coisa que, para mim, era um dever de casa também. Observava e absorvia o que faziam e repetia os movimentos. Elas me ensinavam e corrigiam minha falta de firmeza em segurar bem um lápis. Criança é um ser humano solidário em sua essência. E desta forma aprendia com elas, que foram (e são até hoje) meus professores em potencial. 

Também frequentei outros ambientes que foram tão importantes no meu letramento, mas que, comumente, não são associados à liberdade. Um deles era a delegacia em que meu pai trabalhava, como policial civil no departamento de documentação. Na minha visão de criança aquele era um ambiente fascinante. Nada opressor. Tinha papel. Muito papel. E canetas, muitas canetas! E, dentro da estratégia de entretenimento da minha pessoa, ganhava do meu pai pilhas de papéis de rascunho para desenhar, canetas e clipes de metal, ficando, de certo modo, quieta e ocupada, de modo que ele pudesse trabalhar sem que fosse advertido por levar uma criança para uma delegacia. Certa vez, cansei de desenhar e resolvi passear pelos espaços. Cheguei até a mesa de uma colega do meu pai, que estava conferindo as digitais dos documentos de Identidade. Ficamos conversando, enquanto ela me mostrava e explicava para que servia aquele pequeno documento. Fiquei curiosa com as assinaturas das pessoas, que mais pareciam desenhos que escritos. 

Descobri assim que cada pessoa tem um nome, mas que cada um também ‘’cria um desenho próprio’’ para falar o seu nome pela linguagem escrita. Oras, pensei, preciso também inventar o desenho do meu nome! Conheci uma a uma as letras do meu nome e em poucos dias aprendi o seu ‘’desenho’’, que escrevia com muito orgulho nas superfícies mais inusitadas – principalmente as paredes da casa. Nos momentos em que acompanhava os deveres de casa das outras crianças nas escolinhas e creches, esta era minha meta de estudo: escrever meu nome. Ponto. E também imitar os movimentos de escrita que via as crianças fazendo. Observava o exercício de repetir um mesmo movimento com o lápis. Um tracinho caído para a esquerda, círculos, ondinhas, zigue-zague… até o fim da linha do papel. Em algum momento, alguém me presenteou com um caderno e eu passei a ‘’brincar’’ com este exercício em várias situações. Era divertido aprender a manusear o lápis dessa maneira. 

Um dia, pedi à minha mãe que inventasse outros tracejados para eu ‘’estudar’’. Ela pegou meu caderno e riscou alguns. Eu revidei, dizendo com sinceridade de criança que não estavam bonitos como os traços da professora da escolinha . Ela apagou e fez outros, com grande esforço. Anos depois, ela mesma contou-me sobre seu próprio processo de alfabetização. Disse-me que fora alfabetizada próximo aos 8 anos, pois sua realidade social foi mais permissiva para o trabalho do que para os estudos. As irmãs mais velhas estudavam e cuidavam da casa. Ela cuidava dos irmãos menores enquanto minha avó trabalhava na lavoura de tabaco. Aprendera o básico em casa, com as irmãs, brincando de escola tendo o chão de terra batida como lousa e um galho de planta como giz. Quando, enfim, chegou à escola, se realizou. Menos por um detalhe: era canhota, e sua professora do primário não aceitava que alguém pudesse escrever com a mão esquerda. Usava a humilhação, a palmatória e castigos como “métodos’’ de podar este ‘’mau costume’’. Por esta razão, minha mãe aos poucos foi perdendo a autoconfiança e determinação em aprender. Quando tinha dever de casa, fazia-o escondido. Tinha vergonha da própria letra, e dificuldade de segurar um lápis com firmeza, já que escrever com a mão direita não fazia parte da natureza do seu ser. E esta insegurança se projetou para a leitura e outras questões, principalmente no tocante a qualquer processo de aprendizagem. Sentia-se incapaz de aprender coisas novas. Completou o Ensino Fundamental, repetindo algumas séries. Desistiu do Ensino Médio para se dedicar a estudar para concursos públicos. Passou na seleção para Serviços Gerais da FURG e somente anos depois concluiu o Ensino Médio no formato de Supletivo. E transformou esta e outras dores, em luta política por causas sociais, defendendo o direito de acesso das minorias à educação e qualidade de vida. 

E foi neste contexto que uma amiga militante, que havia concluído recentemente o curso de Pedagogia na mesma universidade em que meu pai estudava e que também minha mãe trabalhava, montou um pequeno Jardim-de-Infância em nosso bairro. A escola era, na verdade, a garagem grande da sua casa. Tinha um pátio enorme, um cachorro no quintal e um vídeo-game que podíamos usar quando nossos pais se atrasavam ao fim das aulas. Mas o mais impressionante era o tamanho da sua dedicação em acolher a todos. Minha lembrança dessa mulher é de um ser amoroso e paciente, que ria conosco das nossas conclusões espontâneas de crianças sobre os fatos da vida. Movimentava ações sociais no bairro, entre as famílias, fazia campanhas de arrecadação de brinquedos, livros e roupas no inverno para agasalhar bem as crianças mais carentes a quem ensinava. Estas chegavam na escola-casa muitas vezes com fome, e ela recebia-nos com música e uma grande bacia de pipoca. Ensinou-nos, além do alfabeto, a acolher o outro com o coração, a respeitar o modo de ser de cada um, exaltando o que cada criança tivesse de maior potência dentro de si. Seu nome era Ester. 

Sobre a sua didática pouco recordo. Lembro da sala cheia de cores e do quintal cheio de plantas. Da “tia’’ Ester me ensinando a recitar poesia para a apresentação do dia das Mães e lendo os livros que eu levava para a escola. E de fazer todos os dias os mesmos exercícios que fizera nas escolinhas: escrever repetidamente traços e círculos no papel, até o fim da linha… E também do seu marido e filha que, vez ou outra, “invadiam’’ a escola para nos ensinar algo: amarrar cadarços, trançar o cabelo, apontar lápis, organizar a mochila, usar garfo e faca nas refeições, pintar “dentro da linha’’, recortar seguindo o pontilhado, pular elástico, plantar feijão. Ele aparecia de surpresa, cantando, e nos ensinava algo de bom pra levar para a vida toda. 

Chegou, pois, o primeiro ano, ou primeira série. Com muito esforço meus pais conseguiram uma bolsa de estudo no Colégio São Francisco, do grupo Marista. Ano de 1991, eu então com 6 anos, iniciei oficialmente o Ensino Fundamental. A escola, que até hoje é referência em ensino no município, acolhia, naquele ano, três turmas de primeira série. Eu e mais alguns trazíamos conosco a experiência vivida no Jardim-da-Infância. A maioria das crianças, no entanto, entrava pela primeira vez em uma escola, onde passaria metade do dia. Nesse sentido, os primeiros meses foram dedicados a acolher e trabalhar a segurança nos colegas que estavam pela primeira vez frequentando um espaço escolar. Na turma havia uma média de 30 crianças, a maioria de famílias de classe média-alta, inseridas em um contexto muito mais amplo que o daquela escolinha na garagem da casa da professora do Jardim. Estava na “escola das crianças grandes’’, cheia de salas de aula ao redor de um pátio tão grande que os olhos pequenos de criança não alcançavam o fim. Logo na primeira semana me perdi várias vezes no caminho de volta ao banheiro, pois as salas de aula eram aparentemente todas iguais, nos mesmos formatos, cadeiras enfileiradas e crianças igualmente vestidas com seus uniformes verdes. Em algumas semanas, descobri que os frades que zelavam da escola eram bons amigos. O prédio da escola era muito antigo e muito, mas muito frequentado pelos pombos da cidade. Os frades ensinavam-nos que devíamos respeitá-los: a eles e aos pombos; e repetiam os preceitos franciscanos diariamente como parte de uma alfabetização espiritual ou filosófica que desejavam compartilhar. Eu acreditava que fora o próprio São Francisco de Assis que fundara a escola e convidara os pombos todos da cidade a irem ter os telhados da escola como abrigo. Imaginava que, tal como as pessoas, houvesse em algum lugar uma escola para estas aves. Me sentia estudando em um grande castelo, cheio de lugares secretos, como a sala do piano, onde nos escondíamos para desvendar algum mistério que inventávamos. 

Desenhávamos mapas de tesouros (que geralmente eram representados por sementes ou pedras) nas últimas folhas do caderno. Todos os dias a professora fazia a chamada dos alunos presentes, e os nomes dos colegas ausentes eram escritos em um canto colorido do quadro, para que ficassem de certa forma presentes para nós. Lembro de poucas situações em que não houvesse pelo menos uma criança chorando. Não havia nenhum tipo de assistente em sala e a professora, como dizem “se virava nos trinta’’, nos quarenta ou em quantos fosse possível. Em verdade, ela passava alguns ‘’sufocos’’. Quando, enfim, o silêncio pairava na sala, ela suspirava fundo e cantava para a turma uma música do repertório marista. Também cantávamos o hino nacional todos os dias e rezávamos uma prece ao início da aula. Cantar e brincar não era proibido, mas os momentos de ludicidade eram poucos. Sua dedicação diária estava em “conter’’ as crianças mais ‘’rebeldes’’ (por vezes, com auxílio do frei superior) e em ensinar-nos a desenvolver a coordenação motora para, mais tarde, aprender a escrever. Enquanto isso, um alfabeto colorido mas muito antigo, decorava a sala de aula no alto do quadro de giz. 

Quando chegava em casa, geralmente em noites bem frias, montava, em algum canto da casa uma pequena escolinha. Tinha um pequeno quadro de giz onde “ensinava’’ às minhas bonecas e pelúcias, o que aprendera na escola. Letras de todos os tamanhos e formas, tracejados e qualquer coisa relevante naquele momento, tendo o cuidado de ensinar com mais dedicação às bonecas menores e aos animais, principalmente meu cachorro. Tinha certeza de que eles estavam tão empolgados quanto eu neste processo. 

Os exercícios de coordenação motora fina eram os mesmos do Jardim-de-Infância, e treinados com as crianças maiores desde as creches: repetição dos tracejados, círculos, ziguezagues…. Até o fim da linha. Todos os dias. Acabava o caderno, ganhava outro para seguir fazendo o mesmo. Quando a turma se dispersava em uma atividade, entregava a cada um uma folha com o mesmo exercício, impressa em um mimeógrafo. O cheiro da folha recém impressa inspirava o novo. Mas o exercício para mim já era velho, não tinha mais a mesma emoção que no início e eu, por vezes, chorava em ter que fazê-lo sob a ameaça de ficar sem recreio ou outra perda possível. 

Com o tempo, entretanto, meus pais perceberam que passei a demonstrar uma certa resistência em ‘’desenhar as palavras’’, como assim eu chamava a escrita. Não tinha mais paciência em fazer os tracejados ou, quando tinha, fazia com pouco ou nenhum capricho. Meu pai foi, então, à escola, questionar e conversar com minha professora sobre a questão desse tipo de exercício diário e repetitivo estar se tornando exaustivo para mim, e atrapalhando o processo natural da minha alfabetização. Ou talvez ele tenha se dirigido a ela com a afirmação de que eu não faria mais deveres de casa e ponto final. É possível, também. O fato é que, durante os meses seguintes, as minhas atividades escolares mudaram. Tínhamos mais colorido nos cadernos e na sala de aula. Os colegas que estavam iniciando a jornada da escolaridade estavam mais ‘’calmos’’ e participativos, e a professora já gritava menos. Eu fazia um grande esforço em manter o mesmo entusiasmo, pois entendia, minimamente, que a oportunidade de estudar naquela escola era como encontrar um tesouro no fundo do mar. Mas ali, naqueles tempos já nos primeiros anos, as circunstâncias do ambiente escolar me fizeram perceber que no mundo ‘’dos adultos’’ havia (e há!) todo tipo de opressão, das mais sutis às mais escancaradas. Que é possível subtrair aos poucos a coragem de uma criança ser ela mesma, de assumir seu papel no mundo enquanto adulto e que o medo e a insegurança pessoal resultante de todo esse processo pode ser usado como um intrumento de poder político, inclusive. 

Anos depois, já tendo atingido as vésperas da idade adulta, conheci uma terapeuta vocacional com quem dividi todos estes relatos. Trouxe a mim histórias de casos semelhantes, e apontou a ligação de alguns fatos com o momento que vivia: “ansiedade nível máximo’’ e “memorização nível mínimo’’. Estudar me deprimia, livros longos e em preto-e-branco me desestimulavam e, principalmente, perdia a paciência rapidamente se precisasse escrever um texto longo ou ficar mais de trinta minutos estudando matemática. Escrever era prazeroso, mas ao mesmo tempo causava certa irritação. Pois o que para mim era um grande e irritante mistério, para ela era simples de entender, pois em sua carreira encontrou várias pessoas da minha geração, com os mesmos contrastes, e histórias de vida semelhantes. Aconteceu comigo o que aconteceu e vem acontecendo com várias crianças por todos os lados do mundo: em pleno processo do despertar para o universo das linguagens, a maioria de nós é obrigada(o) a se “enquadrar’’ em um modelo de ensino que não respeita o tempo e o desenrolar das descobertas da sua própria capacidade de aprender. Precisam estar, simultaneamente prontos, para receber as enxurradas de informações e absorvê-las ao máximo, do jeito que puderem. 

Um dia, conversando sobre esses assuntos com meu pai, que depois de muitas experiências intensas em sua carreira de policial, formou-se em Geografia e fez Mestrado em Educação Ambiental, desgarrando-se da polícia para seguir a carreira de docente no Norte do país (levando eu e meu irmão a experienciar essas andanças consigo), lembramos da minha professora do primário. Ele contou-me algo fascinante: sua visão de pai sobre a sala de aula e o modelo onde estávamos todos inseridos, eu, as outras trinta e poucas crianças e a professora. Esta, uma jovem professora do interior do Rio Grande do Sul, de raízes e sotaque germânicos, viveu muitos desafios em seu ambiente de trabalho. A ela, o processo também era opressor. Sei disto porque hoje, aos 31 anos, tendo encontrado na Educação um caminho para ajudar na transformação do mundo e na minha própria, compreendo bem o que esta jovem professora passava diariamente. Há que se ter muito amor e muita fé nesta profissão e nesta missão de despertar nos seres humanos em formação a infinita potência criadora e aprendiz que todos carregamos. E muita paciência neste modelo que formatou os processos de ensinagens em um padrão quase industrial, visando aparentemente, a produção de cidadãos-padrão facilmente manipuláveis. 

 Nesta mesma conversa, falamos sobre os mestres que nos inspiraram à vida, e meu pai perguntou-me duas coisas. A primeira me fez rir. A segunda, quase a chorar. Iniciou, em uma brincadeira, questionando-me se eu havia perdoado a “tia Gisele’’, minha professora do primário, por ter retirado os lápis-de-cor das atividades de escrita, deixando-os restritos apenas às atividades de “colorir’’. Recordei ali, que a transição entre o primeiro e o segundo ano do Ensino Fundamental foi marcada, também, pela ausência das cores nos cadernos e folhas de atividades impressas nos mimeógrafos. Simbolicamente, é possível comparar estas mudanças a outras viradas e mudanças radicais vivenciadas pelos aprendizes, que passam desavisados como quem é surpreendido por uma onda gigante. Mas o detalhe é que ninguém os prepara pra isso, mas todos seguem superando e atravessando o processo de aprender mesmo com a dureza que muitas vezes o sistema oferece. 

A sorte das crianças é que elas têm colorido por dentro, arco-íris nos olhos e umas faíscas de esperança que vêm lá de não sei onde e perigosamente contaminam os desesperançosos de mudanças, espalhando pelos arredores com uma fé no futuro de alto contágio. Isto me fez lembrar da segunda pergunta do meu pai. Ele disse: filha, que é a Esperança? A que ele mesmo respondeu rapidamente, trazendo à memória a definição do mestre Paulo Freire, que transcrevo aqui: ‘’é preciso ter esperança. Mas tem de ser esperança do verbo esperançar… Esperança do verbo esperar não é esperança, é espera… Esperança é ir atrás, é se juntar, é não desistir. É ser capaz de recusar aquilo que apodrece a nossa capacidade de integridade e a nossa fé ativa nas obras. Esperança é a capacidade de olhar e reagir àquilo que parece não ter saída…’’ 

Meu processo de alfabetização neste mundo se deu pelo exercício desta esperança. Desde os primeiros traços até o momento em que digito estas palavras. Desde o tempo em que tinha a certeza de criança de que seria uma ‘‘salvadora de animais’’, astronauta e professora de Ciências nas horas vagas, até o momento presente, eu Bruna, educadora, bióloga, brinquedista, inventadora, e mais uma porção de coisas que sou e sei, mais aquelas que sou e não sei ainda, eu tenho esperançado. E esperançarei tanto quanto for possível nessa estrada infinita de possibilidades e modos de caminhar que é a Educação. 

Acredito nesta esperança ativa e me volto para a criança, esperançosa por natureza, a quem conjugo na terceira pessoa do tempo presente: ela, esperança. 

Porto Alegre – RS; 14 de fevereiro de 2017.

Profª Norma Farias da Silva

        Memórias da minha alfabetização 
                                                                       
     Recordo-me da minha irmã, iniciando a me ensinar a ler e a escrever, sete anos mais velha. Montávamos os bancos, no meio do quintal. Escola infantil, antes do primeiro ano, nem sabia que existia. Nós cantávamos, declamávamos, e aprendíamos as primeiras letras, lá na nossa Vila Palmira, em São Paulo, todos com poucos recursos, mas com muita vontade de ingressar na escola. Acredito que a alfabetização aconteceu um ano antes do nosso ingresso, falo assim, porque não me enxergo sozinha, eram os vizinhos, os primos e quem chegasse. Quando se iniciava o ano, estávamos todos sabendo ler e escrever, pensava que todos tinham conseguido. 
     Minha mãe me acompanhou no primeiro dia de escola. Estava muito feliz. Minha professora se chamava Dona Ofélia. Não dei trabalho, consegui acompanhar, graças à boa vontade de minha irmã. A escola era rígida, com falas assim, “barriga pra dentro, peito pra fora”. Cantei o Hino Nacional durante todo ano, adorava. Ganhei presente por ter feito uma boa redação: “O homem na Lua”, escrevi que pensava que São Jorge morava lá. Recebi puxão de orelha, não conhecia os algarismos. Mas estava caminhando pela escola. 
     Hoje, percebo que vivi em plena ditadura militar, ingressei na escola em 1967, nem respirávamos em sala, nosso uniforme deveria estar sempre em ordem, o meu sapato estava furado, mas era engraxado. Mas era feliz, pois não sabia de nada. A escola tinha “a caixa”, minha mãe, orgulhosa, não admitia tirar um atestado de pobreza, para que eu ganhasse o material e a merenda e, às vezes, tinha uma fominha de doer, mas nem ligava - escola era o melhor lugar do mundo, pra mim. Lia gibis do Tio Patinhas, Mickey, Super Homem, e até Monteiro Lobato, que eram presentes de um menino lá da vila, que a mãe era doméstica e a patroa lhe dava. Apresentava-me, encenando, cantando, na escola. 
     Minha avó com sua simplicidade, dizia: - “escola é só prá ler e escrever, vai cuidar da casa, depois, faz a lição”. Não achava bom estar em férias, queria mais escola. Penso que a maneira que aprendi a ver o mundo era de controlar todas as necessidades, sem ninguém saber das dificuldades que passávamos. Aproveitei o que eles me ofereceram, não tinha consciência de nada e, tenho certeza, os que estavam comigo também. Havia crianças que, no meu modo de ver, eram bem tratadas, e eu fazia de conta que era uma delas, já estava no meio, e isto me bastava.

Profª Rosana de Moraes

     Memórias Afetivas de Alfabetização e Letramentos na Infância

                                                                           

                                                                                                          

 Primeiros processos de letramento:

      Meu primeiro contato com o letramento foi através dos rótulos de alimentos. Os saquinhos do leite Mi-Mi, que a mãe lavava e cortava para fazer cortininhas de plástico (lembro ainda do cheiro do leite), e as latinhas de leite Ninho, que nós “roubávamos” e nos afogávamos escondidos, porque era denso e trancava na garganta. Sabia de cor qual era leite em pó e qual o leite de saquinho.

Lembranças da escola:

       Da escola, lembro-me das cobrinhas e voltinhas. O cheiro da pasta misturado com os lápis de cor e pão, que eu levava de merenda e as letras A a – Abelha, B b – Bola. 
      Algumas vezes eu chorava, não queria que a mãe fosse embora, quem me acalmava era o senhor que cuidava do portão e me pegava pela mão. 
      Eu gostava, gostava muito de ir para a escola e cuidava do meu caderno para não criar orelhas. Faz muito tempo, minha memória falha, sei que em algum momento tinha o Alfabeto na parede e a frase: IVO VIU A UVA! 
      Na passagem da letra bastão para a cursiva, passei trabalho, não entendia o processo de emendar uma letra na outra, o bom e velho caderno de caligrafia me ajudou nessa etapa penosa.
      Gostava muito da hora da leitura, e ficava toda boba quando a sora chamava as “outras” para me apreciarem.

Sobre Ler e Aprender na Vida:

      Da alfabetização de mundo, tive ajuda do Pai, que sabia um pouco mais que a mãe e tinha um jeito especial de ensinar a divisão, o que, aliás, só fui entender que era o contrário da multiplicação, em casa, tendo ele como professor. Mas nem tudo eram flores, muito tomei cascudo por não decorar a tabuada, fazia voltas em torno da casa, e ai de mim, se ao chegar, o Pai fosse tomar a tabuada e eu errasse, lá vinha cascudo, às vezes, até uma surra.
      Sempre fomos da leitura lá em casa, o pai incentivava e comprava gibis e depois, na adolescência, comprava uns livros de romance, Julia ou Sabrina, que minha irmã e eu devorávamos... Ah, que tempo bom de lembrar! 
      Sobre leitura de rua, teve uma vez que estávamos no ônibus, o pai e eu, e olhei pela janela e disse: _olha que tri, pai, o esqueleto de ferro! Meu pai caiu na risada, primeiro, porque achou engraçado eu falar “que tri”, catarinense que era, e explicou que era o Monumento aos Açorianos, que só bem mais tarde fui entender a complexidade da escultura.
      Foram muitas e tantas, foram passeios de bici, idas ao Mercado Público, passeios nos Morros de Porto Alegre, excursão para o Lami e Belém Novo, enfim, uma infinidade de aprendências, que já nem lembrava, se não fosse por ter começado esse relato. 
      Gratidão ao velho Elio, meu pai, professor de vivências sem saber, sem eu saber que estávamos juntos nessa caminhada plena de letramento e alfabetização de mundos.