Atividade 1- Ciranda de memórias de nossas alfabetizações na infância: proposta de uma narrativa detalhada do processo de aprendizagem das alfabetizadoras em processo, seu letramento, experiências de alfabetização, escola, professora, métodos, lembranças.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Profa. Alessandra Moreira

                                          Minhas memórias escolares                                              
     
      Quando dizem que o contexto histórico das vivências das crianças para a educação é importante, é incontestável. Eis que me deparo com minha própria história de vida e escolarização. Resolvi colaborar com os autores dessa área para comprovar e provar que é verdade. E que a educação tem muito a mudar, para que assim possa ser um instrumento de transformação da realidade das pessoas, vislumbrando dias melhores.
      Não fui para a Educação Infantil nos meus primeiros anos de infância. Apenas hoje sei que o direito à Educação Infantil é um imenso avanço que tivemos em função da Constituição de 1988. Se não me engano, entrei na escola na primeira série, entre 1988 e 1989, em uma escola em Pantano Grande, a 120 km de Porto Alegre.
      Lembro, claramente, de minha mãe nessa história de vida e escolarização. Ela saía de Pantano Grande bem cedo para pegar o ônibus na Rodoviária, numa viagem que dura em média duas horas e meia até Porto Alegre para fazer faxina. Retornava tarde de Porto alegre, muito tarde da noite. Esperávamos já dormindo. Os cachorros latiam avisando que a mãe chegara no meio da escuridão. Não havia luz elétrica. Chegava cansada, deitava-se e dormia. Pela manhã acordava cedo e saia para ir ate o armazém mais perto comprar mantimentos para os oito filhos. Não era todos os dias que fazia faxina, às vezes eram um dia sim, e outro não. A faxina era uma vez na semana e até uma vez no mês. Dependíamos das faxinas de minha mãe. Até que um dia conseguiu trabalho em um hotel de Pantano Grande. Hoje o nome do hotel é Cidade Nova. A dona era uma “gringa”, como desse modo era chamada. Minha mãe trabalhava como serviço geral e cozinheira. Os donos pagavam mal. Era uma exploração, devia receber um salário mínimo ou até menos. Tudo que sobrava dos restos de alimentos dos hóspedes minha mãe colocava em um baldinho e levava para casa, onde distribuía em partes iguais para todos os filhos. Muitas vezes, a comida tinha cheiro de cigarro e até tinha palito no meio. Comíamos bem felizes, sem reclamar. Por que reclamar, se a comida era saborosa, tinha carne, arroz, feijão, ovos e saladas? Coisa que muitas vezes não tínhamos em casa. 
     Minha mãe levantava cedo para trabalhar. Tomava um café preto gelado do dia anterior e saía. Sempre via a xícara dela com resto de café e muita açúcar no final em cima do fogão a lenha. 
      Eu ficava acendendo o fogão a lenha em casa, porque era expert em fazer fogo. Desde pequena conhecia a natureza, experimentava tipos de materiais da natureza para pegar fogo. Acredito que isso fez com que amasse o fogo, também gostava das cinzas que ficam no final de um bom fogo, o que fica depois dentro dos fogões, a lenha queimada. Simplesmente as coisas se tornam cinzas. 
      O mais difícil sempre era fazer isso em fogão a lenha em invernos rigorosos. Tínhamos que catar e armazenar lenhas e galhos no verão para que não viéssemos a ter problemas em nossos fogões a lenha. Muitas vezes, tínhamos que usar plásticos ou querosene. Na maioria das vezes, era o plástico o mais usado por mim, vivia com as mãos queimadas, pelo fogo que colocava no plástico que derretia e caía em minhas mãos. Vivia com as mãos queimadas, mas quentinha pelo aquecimento do fogão a lenha e tomava nosso café de cevada maravilhoso e, em seguida, saíamos, eu e meus irmãos para a escola. 
      Na escola, era um mundo à parte aprendíamos as letras, o alfabeto e as regras, e que regras! Minha mãe é de uma época que os estudantes tinham que respeitar os professores, sem questionamentos. Entregou-nos para as professoras. E disse: "Professora, se eles incomodarem pode botar de castigo". Imaginem se iríamos desobedecer. Eu, nunca! Naquela época ainda colocavam crianças de joelhos nos milhos como forma de punir. Lembro, claramente, de meu irmão Sandro de joelhos no milho na sala da diretora. Não pude fazer nada por ele. Quando saiu do castigo disse que ele deveria se comportar para que não o castigassem, mas meu irmão não me escutava. Não escutava a orientação da professora Jussara, e sempre se dava mal. Vamos dizer que nunca se adequou à escola, e, talvez, tivesse razão, naquele contexto. Naquele tempo histórico da educação, as coisas funcionavam assim, os professores eram um tipo de inquisidores da educação. Quem se submetia às regras e reproduzia o saber absoluto eram "os queridinhos". Os que não conseguiam, eram os desobedientes, os que não estudavam, os que não conseguiam aprender. Eram tachados de burros. Tenho certeza que quem começou com o bullyng foram as professoras, e isso se espalhou como exemplo para os estudantes praticarem com outros alunos.
        Nessa mesma escola e sala estudávamos eu e meus dois irmãos, Sandro e Nilza. Eles tinham entre 7 e 8 anos de idade. Eu acredito que tinha entre 9 e 10 anos de idade. Aprendia mais rápido o conteúdo, ao certo por ser mais velha, eu acho, não tenho certeza. Meus irmãos tinham muitas dificuldades no processo de alfabetização. 
       E por sermos muito pobres, minha mãe nos comprava um lápis e um caderno para durar o ano todo. Só que o material escolar que comprava era de péssima qualidade. Meus irmãos apontavam o lápis, que se quebrava todo. Em uma semana eles não tinham mais lápis. Eu cuidava muito bem do meu material escolar, apontava o lápis de uma forma que não quebrava a ponta para durar mais tempo. Quando a professora colocava o conteúdo no quadro, eu copiava o meu conteúdo no meu caderno, do meu irmão Sandro e depois da Nilza. Até a metade do ano foi assim. A professora deve ter descoberto que eu fazia, para meus irmãos, as atividades de escrever e responder. Disse à minha mãe que meus irmãos tinham dificuldades no processo de aprendizagem. Quis ajudá-los e os ferrei. Tentei de todas as maneiras ajudá-los. Eis, que neste mesmo ano, ambos fizeram provas no final de ano e foram reprovados. Foi a maior tristeza para mim, meus irmãos não seguiriam comigo no próximo ano, na mesma sala. Na mesma sala poderia protegê-los. 
       Minha memória segue viva nessas lembranças. Recordo bem quando minha mãe cobrava do meu irmão Sandro o tema de casa, e a utilizar o caderno de caligrafia. Quando o menino errava a letra em seu caderno, minha mãe batia com uma régua nos dedos dele. Eu pensava: o que uma analfabeta sabe sobre processo de alfabetização de crianças? Que horror! Pobre do meu irmão! 
      Sempre fui boa estudante, gostava de escrever e desenhar. Meu mundo de criança era quase só brincar. De brincar na escola e na minha casa. Na escola, pulávamos corda até nossos corpos perderem as forças. Minha casa era um casebre humilde, rodeado de mato em volta e uma sanga ao fundo. Corríamos divertidamente. Fazíamos corridas de saco, corrida de rua, cabra cega, pega-pega com meus tios Rogério e Luciane. Éramos muito felizes. Andávamos no mato criando nosso próprio mundo, o mesmo mundo que estou recriando com vocês. 
      Ouvíamos os pássaros debaixo de umas árvores. Repetíamos os cantos dos pássaros como se pudéssemos conectá-los conosco por meio da imitação de um assovio repetidas vezes. Eu não gostava de cortar as árvores para fazer lenha para o fogão. Saímos pelo mato catando gravetos, galhos e troncos de árvores secos caídos no chão para levar para casa quase todos os dias. Era possível encontrarmos cobras no caminho. Sempre morri de medo de cobras, minha mãe tem medo e eu também. Quando sonho com cobras, pode escrever que é inimizade. Observava a natureza, as folhas nas árvores, os pássaros, o céu, as estrelas, o sol, a noite, o vento, a chuva, o inverno e o verão. 
      No verão, à noite, em Pantano Grande, era o que tinha de melhor. A lua brilhava sobre nós. Com meus irmãos e tios sentados em frente à nossa humilde casa, ficávamos noites inteiras conversando sobre fantasmas, o céu, as estrelas e a lua. Contávamos, incansavelmente, as estrelas, sempre nos perdíamos na contação. Acreditávamos, piamente, que na lua estavam o burrinho, menino Jesus, Maria e José. Santa ignorância. Eu, sempre duvidei. Sempre fui metida a saber tudo, porque sempre duvidava das explicações desse tipo de história. Minha mãe sempre dizia: A Alessandra é metida a sabichona. Eu, sempre petulante. Explicava de forma astuta. Mãe: "não será porque eu estudo e aprendo rápido"? Minha mãe ficava furiosa. Logo emendava uma ordem: "Vai lá, sabichona, cuidar das tuas tarefas". Lá eu ia. Eu era a mais velha tinha que ser exemplo para meus irmãos. 
      Minha mãe dizia: "-Alessandra, vai buscar leite no leiteiro, vai buscar o querosene no posto de gasolina que está faltando para o lampião, vai buscar lenha para o fogão (eu dizia: mais lenha mãe? Ela dizia: você não sabe o dia de amanhã), vai cuidar dos teus irmãos". Por final minha mãe só faltou me pedir para acabar com a Guerra do Golfo. A Guerra do Golfo começou quando o presidente iraquiano Saddam Hussein acusou o Kuwait de praticar uma política de super-extração de petróleo, causando uma queda nos preços e prejudicando a economia iraquiana. Saddam também ressuscitou problemas antigos e exigiu indenização. Como o Kuwait não aceitou, foi invadido por tropas iraquianas. Motivo esse que proporcionou a entrada dos EUA nesse entrevero. Minha mãe acreditava que o Saddam ia invadir o Brasil e, em especial Pantano Grande. 
      Voltando ainda à minha mãe, ela me mandava buscar querosene para o lampião no posto de gasolina que ficava a 5km da nossa casa. Levava um recipiente, que era para trazer cheio de querosene. Isso acontecia em dias de tempo bom. No entanto, no inverno, voltava com o recipiente com a metade do querosene. No caminho, ia experimentando em poças de água o querosene. O querosene em contato com água faz lindos coloridos, criava arco- íris. 
       Quando chegava em casa com a metade do querosene, ela queria me matar. Acredito que, quando crianças, os lugares e sua casa são super longe. Quando criança parece que os lugares são distantes e cansativos de chegar. Para eu caminhar longos caminhos, criava Odisseias e IIíadas para chegar no destino. Até hoje, odeio caminhar longos percursos por conta dessas histórias. Gosto mesmo é de correr e pular corda.  

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