Memórias
Entrei para a escola já na primeira série. Guardo com profunda admiração as
lembranças da minha professora, a Berenice. Berê, como é carinhosamente chamada até
hoje, cabelos crespos, sorriso largo e contagiante, tem a voz suave, porém potente!
Ainda fazemos alguns contatos e ela deve ter as inúmeras cartinhas que eu mandava
para ela!
Eu tinha uma mochila que era um urso, ou um cachorro, não recordo ao certo
,mas os pezinhos da criaturinha ficavam balançando e batendo nas minhas costas,
conforme caminhava! Lembro que tínhamos um caderno, que era nossa cartilha, nela
continha o alfabeto, cada página uma letra, alguns desenhos de objetos que tinham a
inicial da palavra. Cada dia coloríamos uma, fazíamos o pontilhado e colávamos na
cartilha. Fui uma criança quieta, falava pouco e observava mais, era muito tímida. No
recreio, gostava de brincar de virar cambalhota nos ferros que cercavam parte do pátio.
Um dia, saímos atrasados. Meu irmão quem me levou nesse dia, talvez por isso
eu tenha esquecido de trocar de calçados, e quando chegamos na escola, me dei conta
que estava usando os chinelos do Sonic (personagem de jogo de vídeo game), ou seja,
de menino! (risos). È claro que iriam rir de mim! Justamente nesse dia fiz xixi nas
calças! Lembro claramente da professora me socorrendo. Ela arrumou outra bermuda
para eu vestir, lavou a minha e pôs para secar. A atitude tranquila dela fez eu me sentir
acolhida, num momento tão constrangedor, tanto que no recreio lá estava eu, virando
cambalhotas e nem lembrando mais do acontecido. Voltando aos chinelos do Sonic e de
menino, achei bacana! Sinal de que na minha casa não tinha essa distinção. Minha mãe
era defensora da igualdade de gênero! Está aí uma pessoa que contribuiu com minha
alfabetização de muitas maneiras, principalmente dando bons exemplos. Ensinou-me a
respeitar as pessoas, independente de qualquer coisa, ensinou-me que todos somos
iguais e ao mesmo tempo temos diferenças e isso não faz ninguém melhor ou pior.
Infelizmente, nosso tempo juntas, aqui neste plano terrestre, foi curto. Mas foi suficiente
para deixar ensinamentos profundos e uma saudade gigante. A vida segue seu curso
com esta saudade e lembrança.
Certa época do ano, minha família e eu nos mudamos para outro bairro, um
pouco afastado da escola, mas de fácil acesso. A partir daí, eu ia para escola com a
professora Berenice. Ela também morava nesse bairro. Minha mãe me levava até a casa
dela e, de lá, seguíamos a pé, a professora e eu. E eu adorava!
Na segunda série, troquei de escola, para uma mais perto de casa. Lembro que
tive uma crise de choro no primeiro dia de aula, porque eu não sabia nada de segunda
série! Medo do novo! Do desconhecido! Mas passou, e continuei bem faceira!
Recordo os passeios ao zoológico, as festinhas na sala de aula, aquelas que cada
um leva um prato e minha mãe fazia bolo de chocolate, enfeitado com balinhas
coloridas e o prato sempre voltava vazio. Recordo também de uma professora
substituta, Bianca era o nome dela, que nos levou para conhecer um acampamento
indígena ( que na ocasião estava em Guaíba) e num outro passeio, fomos conhecer um
grupo de escoteiros. Depois desse passeio queria ser uma escoteira a todo custo!
Gostava muito de brincar de professora, tinha quadro, giz e muitos papéis.
Passava horas brincando sozinha, na minha sala de aula imaginária. Embora gostasse de
ler, sentia frio na barriga toda vez que tinha teste de leitura, em voz alta, na escola.
Atualmente, estudando as alfabetizações de mundos, percebo o quanto todas as
vivências de uma criança são importantes e principalmente marcantes na aprendizagem,
que alfabetizar vai além da compreensão sonora, ou da junção de letras que formam
uma sílaba, que formam palavras. Tudo é alfabetização. Os exemplos dos pais, o jogo
que o menino aprendeu na rua com os amigos ,o banho de chuva, o pacote de bolacha
dividido ao meio, metade tua, metade da prima, o segredo que a menina escreveu no
diário.“Alfabetizações de Mundos”, um olhar expandido para além das linhas do
caderno!
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