Memórias da minha alfabetização
Recordo-me da minha irmã, iniciando a me ensinar a ler e a
escrever, sete anos mais velha. Montávamos os bancos, no meio
do quintal. Escola infantil, antes do primeiro ano, nem sabia que
existia. Nós cantávamos, declamávamos, e aprendíamos as
primeiras letras, lá na nossa Vila Palmira, em São Paulo, todos
com poucos recursos, mas com muita vontade de ingressar na
escola. Acredito que a alfabetização aconteceu um ano antes do
nosso ingresso, falo assim, porque não me enxergo sozinha,
eram os vizinhos, os primos e quem chegasse. Quando se
iniciava o ano, estávamos todos sabendo ler e escrever, pensava
que todos tinham conseguido.
Minha mãe me acompanhou no primeiro dia de escola.
Estava muito feliz. Minha professora se chamava Dona Ofélia.
Não dei trabalho, consegui acompanhar, graças à boa vontade de
minha irmã. A escola era rígida, com falas assim, “barriga pra
dentro, peito pra fora”. Cantei o Hino Nacional durante todo ano,
adorava. Ganhei presente por ter feito uma boa redação: “O
homem na Lua”, escrevi que pensava que São Jorge morava lá.
Recebi puxão de orelha, não conhecia os algarismos. Mas estava
caminhando pela escola.
Hoje, percebo que vivi em plena ditadura militar, ingressei
na escola em 1967, nem respirávamos em sala, nosso uniforme
deveria estar sempre em ordem, o meu sapato estava furado,
mas era engraxado. Mas era feliz, pois não sabia de nada. A
escola tinha “a caixa”, minha mãe, orgulhosa, não admitia tirar
um atestado de pobreza, para que eu ganhasse o material e a
merenda e, às vezes, tinha uma fominha de doer, mas nem ligava
- escola era o melhor lugar do mundo, pra mim. Lia gibis do Tio
Patinhas, Mickey, Super Homem, e até Monteiro Lobato, que
eram presentes de um menino lá da vila, que a mãe era
doméstica e a patroa lhe dava. Apresentava-me, encenando,
cantando, na escola.
Minha avó com sua simplicidade, dizia: - “escola é só prá
ler e escrever, vai cuidar da casa, depois, faz a lição”. Não achava
bom estar em férias, queria mais escola.
Penso que a maneira que aprendi a ver o mundo era de
controlar todas as necessidades, sem ninguém saber das
dificuldades que passávamos. Aproveitei o que eles me
ofereceram, não tinha consciência de nada e, tenho certeza, os
que estavam comigo também. Havia crianças que, no meu modo
de ver, eram bem tratadas, e eu fazia de conta que era uma
delas, já estava no meio, e isto me bastava.
Norma 💙🌺
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