Atividade 1- Ciranda de memórias de nossas alfabetizações na infância: proposta de uma narrativa detalhada do processo de aprendizagem das alfabetizadoras em processo, seu letramento, experiências de alfabetização, escola, professora, métodos, lembranças.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Profª Norma Farias da Silva

        Memórias da minha alfabetização 
                                                                       
     Recordo-me da minha irmã, iniciando a me ensinar a ler e a escrever, sete anos mais velha. Montávamos os bancos, no meio do quintal. Escola infantil, antes do primeiro ano, nem sabia que existia. Nós cantávamos, declamávamos, e aprendíamos as primeiras letras, lá na nossa Vila Palmira, em São Paulo, todos com poucos recursos, mas com muita vontade de ingressar na escola. Acredito que a alfabetização aconteceu um ano antes do nosso ingresso, falo assim, porque não me enxergo sozinha, eram os vizinhos, os primos e quem chegasse. Quando se iniciava o ano, estávamos todos sabendo ler e escrever, pensava que todos tinham conseguido. 
     Minha mãe me acompanhou no primeiro dia de escola. Estava muito feliz. Minha professora se chamava Dona Ofélia. Não dei trabalho, consegui acompanhar, graças à boa vontade de minha irmã. A escola era rígida, com falas assim, “barriga pra dentro, peito pra fora”. Cantei o Hino Nacional durante todo ano, adorava. Ganhei presente por ter feito uma boa redação: “O homem na Lua”, escrevi que pensava que São Jorge morava lá. Recebi puxão de orelha, não conhecia os algarismos. Mas estava caminhando pela escola. 
     Hoje, percebo que vivi em plena ditadura militar, ingressei na escola em 1967, nem respirávamos em sala, nosso uniforme deveria estar sempre em ordem, o meu sapato estava furado, mas era engraxado. Mas era feliz, pois não sabia de nada. A escola tinha “a caixa”, minha mãe, orgulhosa, não admitia tirar um atestado de pobreza, para que eu ganhasse o material e a merenda e, às vezes, tinha uma fominha de doer, mas nem ligava - escola era o melhor lugar do mundo, pra mim. Lia gibis do Tio Patinhas, Mickey, Super Homem, e até Monteiro Lobato, que eram presentes de um menino lá da vila, que a mãe era doméstica e a patroa lhe dava. Apresentava-me, encenando, cantando, na escola. 
     Minha avó com sua simplicidade, dizia: - “escola é só prá ler e escrever, vai cuidar da casa, depois, faz a lição”. Não achava bom estar em férias, queria mais escola. Penso que a maneira que aprendi a ver o mundo era de controlar todas as necessidades, sem ninguém saber das dificuldades que passávamos. Aproveitei o que eles me ofereceram, não tinha consciência de nada e, tenho certeza, os que estavam comigo também. Havia crianças que, no meu modo de ver, eram bem tratadas, e eu fazia de conta que era uma delas, já estava no meio, e isto me bastava.

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