A mão e a voz que alfabetiza
“_Sobe
a mão até lá em cima e deeeeesce, assim...isso mesmo!
“_Viu
só? É fácil...Agora, copie essa letra que é a letra do teu nome...”
Uma
voz suave com cheiro de café, me conduzia pelo caminho e pelas formas das letras, alta e
baixas, redondas e finas... Assim, começo
a recordar de minha passagem de leituras das “coisas”, porque li as palavras ouvindo
muitas formas de entender o que se passava por ali, nos meus primeiros anos de
aprendiz... Acompanhava diariamente
minha mãe a folhear jornais, revistas, bula de remédio, e tudo o que calava sua
voz aguçava minha atenção e pronto: lá estava ela murmurando, lendo alguma
coisa. Comecei por volta da mesa, de
joelhos nas cadeiras, rabiscando os jornais velhos, contornando as letras
grandes. Fecho os olhos e lembro: _ Paula...é essa aqui: “P” de pato...essa oh!
Assim, aprendi a escrever meu nome: pelas letras de jornais.
Ainda
hoje, ao folhar um livro muito antigo ou uma foto com algum registro escrito no
verso, encontro meu nome escrito pela minha mãe e, abaixo, minhas letrinhas.
Lembro daquela mão esquerda, tentando me
guiar firme e das vezes que me fez escrever quilômetros nos
cadernos de caligrafia.
(Por
que a gente chora ao lembrar esse tempo?)
Não
frequentei o Jardim de infância, fui com sete anos para a primeira série do fundamental,
e a memória me traz a sensação de sentir o cheiro da sala de aula, do assoalho
de madeira muito empoeirado. O barulho
das pisadas, o arrastar de cadeiras, o apagador batido forte no quadro, o pedindo
silêncio.
As
inúmeras bolinhas de papel crepom que contornei as letras e desenhos, as
coloridas raspas do giz de cera e a mágica cor que transparecia nas folhas
brancas com cheiro de imaginação...quantas saudades. Tinha o feijão brotando
num algodão úmido, vigiado, diariamente num tempo eternizado, adubado de amor.
Os recreios, os pãezinhos caseiros com mel, embrulhados num pano de copa e
cheiro de casa na escola. Lembro da
praça do bairro, que era ao lado da escola. A única praça ali perto. Íamos em
grupos: Os mais velhos cuidavam dos mais novos, dia de festa!
Não
posso dizer que minha alfabetização se iniciou nesse tempo, mas comecei a ler o
mundo das coisas imóveis, por pessoas móveis. Por pessoas amor, por amor de
pessoas, em lugares que fui. Minha querida professora tinha olhos grandes, cor
de amêndoa, cheiro de creme de rosas, usava um relógio e um anel brilhante.
Seus cabelos eram cacheados, seus dentes branquinhos (Querida professora
Elisete, ainda tenho o meu boletim, com a tua pintura na capa!) Quase nunca
faltava, mesmo em dias de chuva e sol, lá eu ia faceira com minha sombrinha
vermelha.
Fui
aluna média. Sempre vinha uma
observação: precisas conversar menos! Estude em casa!
Filha
do meio, pais pobres, de poucos estudos, sempre me diziam que tinha que estudar
para “ser alguém”. Reprovei algumas vezes
durante o período escolar. Período escolar, este que ainda é de notável rigidez
e praticamente igual ao que vivi em 1988. Nunca fui boa com os números. Via um,
identificava outro, trocava muito. Essas lógicas que exigem das multiplicações
e divisões, me desclassificavam, me deixaram longe várias vezes dos meu colegas”
inteligentes”. Tinha muitos amigos, tínhamos inúmeras brincadeiras em comum,
mas eu não sabia a tabuada do sete. Ficávamos correndo o pátio, todos os dias,
mas eu não soube fazer divisão. Assim, me distanciei de uma colega que um dia
chorou e me confidenciou , dizendo que estava com muitas saudades da sua
mãezinha, que havia partido. Fui fiel. Fui amiga, companheira e solidária. Mas não tive condições de ir em
frente com ela, porque não aprendi a
divisão... E desde então, aprendi a ler
letras e ler o tempo. A palavra eu decifrei e o tempo me disse que eu não o
acompanhava. Ou alguém me disse que eu não compreendia a tempo! Qual tempo? O
meu ou o de quem me deu o tempo? Por muito tempo, eu perdi o tempo. Por muito
tempo, eu não aproveitei o pouco tempo e
ele me deixou pra trás. Pra trás onde, se estou aqui sentada voltando no tempo...
Quem disse que ele não era meu?
Aprendi
a ler desde quando ouvia o pulsar do coração de minha mãe. Lembro da sua voz afônica,
ainda dentro do seu colo, lembro muito. E pelo olhar aprendi o que é amorosidade,
brabeza e alegria. Lia, então, reações e sentimentos. Li e aprendi a conviver
entre irmão, aprendi então a dividir. Aprendi que, lá na escola, eu tinha tempo
pra mostrar tudo isso através do lápis que segurava sozinha e
corajosamente. Aprendi a ler, e para
compreender me esforço muito desde de pequena. Sigo me alfabetizando de vidas:
as que já tive e as que encontro com o
passar dos tempos.
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